Os meios de produção
Segundo a teoria marxista, meios de produção são o conjunto formado por meios de trabalho e objetos de trabalho – ou tudo o que medeia a relação entre o trabalho humano e a natureza, no processo de transformação da própria natureza.
- Os meios de trabalho incluem os instrumentos de produção: instalações prediais (fábricas, armazéns, silos etc), infraestrutura (abastecimento d’água,energia, transportes, telecomunicações, máquinas, ferramentas etc).
- Os objetos de trabalho são os elementos sobre os quais ocorre o trabalho humano (recursos naturais (terra etc.) e matérias-primas (minerais, vegetais e animais).
Para Marx, a propriedade dos meios de produção determina a posição dominante da burguesia no modo de produção capitalista. O modo de produção é, por sua vez, determinante na organização da sociedade (Wikipedia)
A Internet representa a maior revolução na comunicação humana desde que o ourives Johannes Gutenberg resolveu abandonar as pepitas e construir a primeira prensa móvel em 1440.

Johannes Gutenberg, inventor da imprensa
Em sua época, a invenção de Gutenberg possibilitou a disseminação de informação em massa ao abaixar os custos e possibilitar a publicação de livros em larga escala. O acesso à informação desencadeou um processo revolucionário que derrubou sistemas políticos, criou novas ideias, economias, religiões, costumes…
Não é exagero dizer que a Internet vai no mesmo caminho. Mídias sociais, guerras virtuais, novos hábitos de compras, mudanças na relação de poder consumir-empresas, revoluções políticas são apenas os primeiros passos de um processo que promete ser duradouro.
Foice e martelo
E o ponto comum entre o hipertexto de Tim Berners-Lee e os tipos móveis de Gutenberg é que ambos democratizaram o acesso aos “meios de produção” da indústria midiática.
Karl Marx, conterrâneo do nosso amigo Gutenberg, dizia que a “propriedade dos meios de produção determinam a posição dominante da burguesia e o modo de produção capitalista”. Logo, podemos dizer que a democratização destes meios terá efeito devastador na maneira em como nos organizamos como sociedade.
O coração da revolução atual é o mesmo da Alemanha medieval: a democratização do acesso aos “meios de produção” e aos “objetos de trabalho”. Ou seja, o fim das indústrias intermediárias, dos atravessadores, de filtros sujeitos à manipulação.
O primeiro livro produzido em massa foi a famosa Bíblia de Gutenberg e não foi à toa que a democratização do acesso à palavra de Deus foi um dos pilares da Reforma Protestante que desafiava o poder do Papa como “intermediário” divino.
Mesmo sem facebook naquele tempo, Martin Lutero fez “95 posts” na “wall” de uma igreja de Mainz dizendo coisas do tipo: “Qualquer cristão que está verdadeiramente contrito tem remissão plena tanto da pena como da culpa, que são suas dívidas, mesmo sem uma carta de indulgência.”
Nossa revolução começou em estágios mais mundanos. Mas nem por isso os efeitos são menores.
Se sou um consumidor destratado, tenho como elevar minha voz. Também não preciso mais me submeter a um vendedor – treinado em me persuadir a comprar o que não quero. Se estou em uma loja, munido de um smartphone, posso rapidamente pesquisar a opinião independente de centenas de outros compradores que avaliaram o mesmo produto que pretendo adquirir.
Se sou artista, não preciso mais me prostituir para uma gravadora musical. Durante anos fomos obrigados a engolir artistas fabricados para o mercado, álbums compostos por marqueteiros e pagamos preços altos para o consumo de cultura barata.
É negando estes atravessadores desnecessários que estamos vendo um renascer criativo fora do domínio de gravadoras e seus executivos.
“A banda mais bonita da cidade” é um exemplo de como se pode dominar com competência os meios de produção e distribuição que a comunicação digital nos oferece.
O grupo utiliza o site catarse.me para possibilitar que os fãs financiem seu disco diretamente. Se você quiser ver “Canção pra Não Voltar” no álbum, basta pagar quantias que iniciam em 10R$ para garanti-la no disco, assim o conjunto tem total domínio de seu processo criativo.
Mas o maior sucesso da banda foi o uso inteligente do YouTube. Os mais de 6 milhões de visualizaçõeszinhas do videozinho bonitinho daquela musiquinha fofinha, “Oração” me deixou pensando em duas coisas:
- Como é fantástico o potencial viral da internet;
- Como eu queria que o João Gordo aparecesse no meio do clipe e fizesse aquele rapaz comer a margarida que ele carrega no bolso.
Que seja eterna enquanto dure…
Por enquanto, a Internet está aí para acabar com os intermediários e abrir portas. Nossa geração tem o privilégio de viver um daqueles momentos quando é possível chacoalhar a poeira de velhos valores, inverter a lógica de jogos de poder, tomar conta do próprio rumo e inovar.
Mas é preciso pressa. Assim como a imprensa de Gutenberg, uma hora os ventos se acalmam e alguém senta para comandar a máquina mais uma vez.
A própria reforma protestante – que semeou a liberdade religiosa e chegou a pregar a ligação de cada indivíduo com o divino – terminou em alianças que mais uma vez transformaram a fé em instrumento de manipulação política.
Coincidência ou não, nesta semana o Papa Bento XVI enviou seu primeiro twitter. Daqui a pouco, quem sabe não poderemos pagar nossas indulgências via paypal?
Como já dizia Vandré, “quem sabe faz a hora” e caminha com “a certeza na frente, a história na mão”.
Vídeo da música oração (não recomendado a diabéticos):
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