Como criar um Bolsonaro

A alquimia possui três objetivos:
1. Transmutar metais inferiores em ouro,
2. fabricar o elixir da longa vida e
3. criar vida humana artificial a partir de materiais inanimados (um clone humano na acepção moderna), os homúnculos.

Wikipedia

Na alquimia, o homúnculo seria um mini-homem que poderia ser criado para obedecer ordens.

Na alquimia, o homúnculo seria um pequeno ser que poderia ser criado para obedecer ordens.

De acordo com a receita do alquimista Paracelso, fabricar um homúnculo era simples. Bastava acumular “um pouco de sémen humano posto em uma retorta hermeticamente fechada e aquecida em esterco de cavalo durante 40 dias”. Ao fim deste período teríamos um ser humano apequenado à nossa disposição.
Para fabricarmos um Bolsonaro, a receita tem ingredientes à altura.

Primeiro, precisamos de uma mídia sensacionalista sempre ávida por um escândalo, louca para vender polêmica.

Adicione aí um obscuro deputado federal, normalmente resignado à sua insignificante vida de devaneios racistas, homofóbicos, militaristas e de apologia à violência.

Misture os dois num contexto de liberalização moral num país de forte tradição católica. Ponha tudo num forno televisivo e alimente com ódio.

Pronto, temos os ingredientes perfeitos para um desastre.

Receita de bolo

Desde que destratou Preta Gil em edição do programa CQC, destilando sua usual lista de intempérios, Bolsonaro iniciou uma era dourada para sua carreira política.

Até então, o ex-militar desfrutava de notória insignificância, encostado em sua sexta legislatura como deputado federal pelo Rio de Janeiro, provavelmente eleito seguidamente pelo mesmo punhado de ex e atuais torturadores que ele defende. E assim permaneceria, apenas mais um folclórico congressita, se não fosse o grande favor do CQC.

Ao deliberadamente selecioná-lo para alimentar sua máquina semanal de polêmicas, o CQC serviu de plataforma para lançá-lo como porta-voz da extrema-direita em âmbito nacional.

É claro, a reação contra Bolsonaro foi sonora e expressiva: gritaria nas mídias sociais, passeatas, processos judiciais, notas de repúdio, abaixo-assinados… uma avalanche midiática que, ao fim, só serve para engrandecer o mal que pretendem combater.

Falem mal, mas falem de mim

Aí reside o maior problema, Bolsonaros e demais seres políticos oriundos das profundezas se alimentam da discórdia. Para ser bem didático: atacar o Bolsonaro é como cutucar bosta, “quanto mais mexe, mais fede”.

Não importa se a cobertura é negativa.

O que estamos fazendo, agora, ao estampar o nome deste cidadão nas capas de jornal é ajudar a consolidar sua alcunha na cabeça de eleitores. Várias pesquisas comprovam o poder da repetição e a influência do “recall” na hora do voto. O eleitor muitas vezes escolhe o nome de alguém conhecido, mesmo que não lembre quem é ou em qual contexto ouviu falar do político.

Com seu poder de agendamento, a imprensa acaba por legitimar este indivíduo como líder de uma tal “extrema direita”, movimento ínfimo que sequer tinha expressividade em nível nacional.

E o pior, nada disso é novidade. E o CQC obviamente sabia com quem estava falando e que tinha na mão um ótimo produto. O único problema é que os rapazes engraçadinhos acabaram dando status e relevância para as patuscadas que o indigitado repete no Congresso há tempos.

Cada vez que seu nome é citado, para o bem ou para o mau, é uma colherada nova de fermento neste bolo fecal. Esta polêmica foi a “retorta hermeticamente fechada e aquecida” que este homúnculo precisava para se desenvolver.

Criatura X criador

Este é um daqueles casos no qual criatura aprende a controlar o criador. Fazendo a única coisa que sabe fazer bem – criar factóides e novas polêmicas – o deputado fluminense tem a imprensa na mão. Afinal de contas, suas baboseiras vendem jornal.

Quando é que Bolsonaro ia sonhar em ter tanto espaço gratuito no rádio, TV e jornais? Acompanhamento jornalístico 24hrs, campanhas dedicadas a seu nome, brigas entre manifestantes, processos na OAB. Isso é um sonho!

A janela mágica da comunicação, assim como o alquimia, trabalha com elementos perigosos e tem o poder de transformar materiais inferiores em ouro, de dar longa vida (Elvis que o diga…) e criar monstros.

Por isso mesmo, é preciso ser usada por alquimistas aptos e com muito cuidado para evitar que a criatura domine o criador.

Obviamente não acredito que a solução seja apenas ignorar a presença de uma correntede extrema direita no Brasil. Mas o Bolsonaro é um desses elementos que nunca deveria ter saído do armário. Deveria ter ficado ali, acumulando pó, logo abaixo do enxofre. Ao brincar de abrir o frasco com seu nome, o CQC o alimentou com oxigênio.

A contaminação chegou a tal ponto, que acabei escrevendo sobre o assunto. Declaro-me culpado.

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  • http://profiles.google.com/djborges David Borges

    Estás a perpetuar o próprio modelo que criticas. Deixa o dito cujo desaparecer das páginas fétidas da mídia rasa, demagoga, populista e sensacionalista. Sim eu sei. Redundâncias… :)

  • Fernando Zarur

    Pois é David, concordo plenamente. Mas com o comentário, entraste na roda também meu caro! É… se ficar o bicho pega, se correr o bicho come…