Notícias úteis
Esta é uma tradução de um artigo bastante provocador de Gerry McGovern, irlandês arretado que pesquisa e escreve sobre conteúdo para Internet. O texto é de 2008, mas acho que continua válido.
A análise dele é um tanto ácida e talvez até um pouco exagerada. Mesmo assim, a idéia é válida. Um ótimo convite para pensarmos no real valor e estilo do conteúdo que empurramos em nossas páginas ou se nos transformamos em máquinas de cuspir releases.
Notícias úteis
Por Gerry McGovern
Deixar o controle do seu site na mão de um jornalista é como deixar um alcoólatra tomando conta do seu bar.
Jornalistas e escritores trazem consigo muitas das habilidades profissionais necessárias para se trabalhar bem na web. Páginas de internet dependem de conteúdo de qualidade. Bons jornalistas foram treinados para fazer exatamente isso. É um encaixe natural.
No entanto, quando o jornalista administra um sítio, especialmente se for uma intranet, eles imediatamente tentam transformá-lo em noticiários.
A notícia é, claro, parte relevante de uma intranet. Mas raramente é a tarefa mais importante ou razão pela qual as pessoas visitam uma página na web.
Encher a homepage com noticiário não necessariamente indica que você está comunicando mais ou melhor. Em muitas situações, na realidade você está prejudicando a sua reputação como fonte de informação qualificada. Forçar notícias guela abaixo de seus usuários só vai irritá-los.
Muitos sites também cometem o erro de ter como objetivo aumentar a quantidade de notícias publicadas, sem analisar o porquê. Este fenômeno é ainda mais grave quando este volume é composto por conteúdo de auto-propaganda. Um “comunicado de imprensa”, o famoso “press relase”, não passa de uma forma clássica de propaganda. Ele é escrito para auto-bajular e auto-congratular (falo como alguém que já escreveu uma penca deles).
Aliás, em sua origem, os comunicados de imprensa nunca foram destinados a ser lidos pelo público externo. Eles foram pensados como uma maneira de facilitar a venda de uma história para a imprensa. Nada mais.
Com lugar garantido nas seções de imprensa ou arquivos para jornaloistas, os releases nunca devem estar em sua página principal. Destacar este tipo de conteúdo na homepage é um atestado que diz: “estamos com preguiça de tomar um ‘comunicado a imprensa’ e transformá-lo em uma história propriamente dita”.
Estamos lidando com um mundo explodindo em informação.
Em junho de 2008, um estudo publicado pela Associated Press sobre o consumo de notícias pelo público jovem adulto demonstrou “crescentes sinais de ‘fadiga de notícias’”. O fenômeno se refere ao excesso de informação e notícias.
Um dos resultados negativos deste fenômeno é que, quanto mais sobrecarregados ou insatisfeitos, menor o interesse ou a disposição dos leitores de continuarem engajados na comunicação.
O estudo afirma ainda que “esse público jovem tinha pouca paciência para os formatos que prometem e não entregam valor algum”. Ou seja, modelos que vendem ideias vazias.
Não é apenas o público jovem que está se mostrando impaciente e cético.
Lembro-me de estar com um engenheiro enquanto ele examinava a página da intranet da organização na qual trabalhava. Ele balançou a cabeça e sorriu cinicamente: “Lá vem mais uma balela do pessoal de relações públicas sobre como ‘nossa-maravilhosa-organização-salva-o-mundo-e-alimenta-crianças’”, ele zombou. “Eu quero hard news, coisas práticas e úteis. Quero a informação que vai me dar ideias para novos produtos.”
Por outro lado, o estudo da Associated Press também diz que “o consumidor esclarecido transforma a notícia útil em unidades de ‘moeda social’ que pode ser usada em uma variedade de situações interpessoais: para mostrar-se inteligente, facilitar a interação com amigos e familiares ou até mesmo subir a escada sócio-econômica”.
“As noções concorrentes de ‘fadiga de notícias’ e ‘notícia como moeda social’, destacam-se entre estes resultados” continua a pesquisa. “Nossa investigação demonstrou, entre diferentes contextos culturais, que a notícia pode desmotivar consumidores, tão facilmente quanto motivá-los. O valor fundamental para o público é a utilidade de uma notícia”.
Em uma era de déficit de atenção e impaciência, as histórias escritas para sites ou intranets precisam ser totalmente orientadas para conteúdos úteis e diretos.
É preciso ajudar as pessoas a alcançarem seus objetivos, a fazer coisas. É preciso ser prático e real.
Acima de tudo, é necessário ser interessante e ter valor. Não devem ser publicados apenas porque é terça-feira e o chefe diz que temos de publicar algo novo no site.


