Revolução 2.0 ou como uma brastemp derrubou o ditador

Alguma hora este papo de Internet ia bater no ventilador, isso todos sabiam.

Só não se esperava que fosse tão rápido. E muito menos que ocorreria no mundo árabe.

Nas últimas semanas, estamos assistindo a algo totalmente novo: uma espécie de revolução popular viral.

Como uma espécie de flash mob levada a sério, o movimento já vitimou um punhado de déspotas criminosos e continua a se espalhar mais rápido que um post no twitter.

Oswaldo Borrelli e sua brastemp

Oswaldo Borrelli e sua brastemp

Enquanto isso, aqui no Brasil, Oswaldo Borrelli, um consumidor frustrado decidiu tornar público seu calvário em tentar receber assistência da Brastemp. No vídeo, ele explica a situação e pede: “ajudem por favor, divulguem este vídeo, amanhã vocês poderão estar no meu lugar”.

Oswaldo foi ouvido. Milhares de pessoas que passaram o vídeo para frente numa demonstração da força do interesse comum.

Em pouco tempo, sua denúncia tornou-se um dos tópicos mais comentados (top trending topics) no mundo. Ele não apenas conseguiu uma geladeira nova, mas ainda arrancou a promessa de que a Brastemp irá reformar todo o processo de atendimento ao consumidor.

O poder de se organizar sem organização

Qual a relação entre a reclamação de um consumidor sobre a Brastemp e a queda de Mubarak no Egito?

Bom, tanto a população do Egito quanto Oswaldo Borrelli beneficiaram-se dos mais modernos armamentos da indústria bélica da tecnologia: SMS, YouTube, Orkut, Facebook, Twitter…

Pareceu lugar comum?

Pois é exatamente isso que faz cada uma dessas plataformas tão poderosas. Hoje, qualquer um de nós, pode ser o instigador de um movimento. Não precisamos mais de uma instituição específica que financie uma complexa estrutura de organização.

Um dos primeiros profetas deste tema foi o professor Clay Shirky que em 2008 publicou “Eles Vêm Aí: O Poder de Organizar Sem Organizações” (assista à palestra no final do artigo).

No livro, Shirky analisa como ferramentas de mídia social e plataformas de colaboração on-line, a exemplo da Wikipedia, permitem um nível de ação em grupo que, anteriormente, só poderia ser alcançada por meio de instituições. Aí esta a chave da chamada “Revolução 2.0″.

Para ele, da mesma forma que a invenção da imprensa aumentou a expressão individual e o telefone a comunicação direta,  o advento das ferramentas sociais online oferece uma plataforma de organização sem as antigas restrições de tempo e custo.

“Que eu me organizando posso me organizar…”

Trilha sonora indicada para esta etapa:

Flash mob, peer-to-peer, redes sociais, SMS são as mais novas siglas que dispomos para nos organizar, nos unir em torno de causas.

Há dez anos, Borrelli teria reclamado da Brastemp, os vizinhos teriam visto a faixa em frente da casa, talvez se solidarizado emprestando espaço no freezer… e só.

Sim, ele poderia escrever para colunas de consumidor. Mas, convenhamos, poucos jornais se empenhariam em desagradar um anunciante com um gordo orçamento de marketing como a Brastemp.

Da mesma forma, o controle estatal da imprensa nos países árabes não permitia a expressão de qualquer informação contra o regime.

A combinação entre descentralização e disseminação de informação transformou a internet na fagulha que faltava para incendiar a região e marcar a primeira revolução organizada em meios virtuais. Sem a igreja, sem partidos… nascida de indivíduos interconectados.

Em declaração à BBC direto da praça Tahrir, um manifestante egípcio afirmou: “Nem o presidente, nem o vice-presidente sabem como mandar um SMS. Eles não usam email. Eles falam outra língua”.

Abertura de 2001 uma odisséia no espaço

Início da tecnologia

Estas são as armas da nova geração: apedrejam seus governos mentirosos com mensagens no facebook. Levantam o tapete e mostram a sujeira por meio de vídeos e fotos que circulam o mundo denunciando genocídios e ataques covardes das forças governamentais. São os “little brothers” funcionando a nosso favor.

É claro, a Internet é apenas um catalizador, uma ferramenta, uma plataforma. As razões que levam à revolta são as mesmas desde o início da história: violência, humilhação, miséria, fome.

Mas “o homem roubado nunca se engana”.

Palestra virtual: Clay Shirky: Instituições X Colaboração

Para ver legendas em português

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