Geração ponte: o nascer de uma cultura eletrônica

Há algo de especial na geração que veio ao mundo entre 1970 e 1985.

Há algo a mais que nos diferencia, além do fato de acharmos natural chamar uma espécie de suíno-humanóide sofrendo de bi-protuberância testículo-facial de “fofão“.

Não fomos apenas os filhos da revolução e os burgueses sem religião.

Somos e fomos a geração que cresceu acompanhando a transição do mundo de analógico a digital.

Crescemos em progressão aritmética (em que r=1) enquanto os bits e bytes progrediam geometricamente.

Tela do River Raid, clássico do Atari

Tela do River Raid, clássico do Atari

Variávamos entre jogar botão e River raid. Compramos nossos primeiros LPs para dançar música lenta com as menininhas, gravamos uma coletânea do ramones em fita K7, passamos para os CDs e sugamos o que podíamos de MP3 enquanto o Napster deixou.

Em resumo, somos uma geração ponte: vivemos e provocamos a transição cultural entre um mundo digital e analógico.

Meninos eu vi!

É claro que viver esta evolução digital não foi nem é privilégio nosso. É óbvio que não inventamos a computação, já tinha muita coisa rolando quando nascemos. E nem todo mundo da nossa faixa etária aproveitou este processo da mesma forma.

Mas para quem cresceu, acompanhou, adotou e participou da construção desta cultura eletrônica, fica aquela sensação de pioneirismo. Somos os velhos lobos do mar, os veteranos do front ostentando as cicatrizes da batalha…

Quando rodeados pelos néscios imberbes que mesmo antes de nascer já são filmados e fotografados em formato digital, olhamos para um ponto infinito e exclamamos com voz encanada:

- “É… no meu tempo, meu filho, modem era de 2400bps, telefone se ‘discava’ e meu TK85 levava 10 minutos para rodar invasores do espaço a partir de uma fita K7″.

A geração que viveu o nascer das redes globais

Nos finados anos 80 e início dos 90, sob a maravilhosa má influência do meu primo Flávio e os boyzinhos da cidade, comecei a acessar o submundo dos BBSs.

Entre as nefastas compras de mês e fiscais do Sarney, acessava o Lucanet, super BBS administrado pelo meu primo e um dos mais completos do Brasil, naquela época.

O grande problema era o preço do interurbano para a conexão via modem. A solução era conectar-se depois da meia-noite, assim pagava-se apenas um pulso telefônico para utilizar, sem restrições monetárias, o rico e nobre conteúdo educativo disponível para sócios VIP como eu (ser primo do dono tinha certas vantagens…).

E o Lucanet não era o único. Em Brasília havia, ainda, o Badalhoca, o Presuntinho e muitos outros.

Enquanto isso, nos EUA, os sistemas de BBS evoluíram de forma profissional. Na era pré-Internet, os norte-americanos estavam digitalmente divididos entre usuários do Prodigy e do América Online.

Tive a chance de utilizar o Prodigy e assitir à primeira transmissão de notícia em tempo real quando estourou a primeira guerra do Golfo, em 1990.

Tela de abertura do Prodigy

Tela de abertura do Prodigy

Por meio do Prodigy, fiz compras e jogava online (o famoso Mad Maze). Sempre que tinha uma chance, aproveitava um computador dando sopa numa loja de informática, com prodigy instalado, e mandava uma mensagem eletrônica para o meu primo José. Isso ainda em 1991/92.

Ah, que saudade da minha velha Olivetti!

Meu primeiro computador foi um TK85 que ganhei do meu tio nos idos 1988.

Ele ficava conectado à minha TV do quarto (equipada sempre com bombril na antena) e levava 10 minutos para carregar uma fita K7 com o jogo invasores do espaço.

TK85 e acessórios, bem parecido com o que eu tinha em casa

Depois a evolução foi em siglas, passando pelo antológico MSX, o Mac Classic E3, o primeiro pentium 385 e assim por diante.

Até que a Internet chegou como uma bomba catalizadora na (r)evolução digital!

A rede acelerou, ampliou e amplificou o que já vinha acontecendo.

Em 1995, através de contatos, consegui me inscrever na BRNet – primeiro provedor de Internet em Brasília – um dia antes do processo ser aberto ao público em geral. Fui um dos primeiros a ter acesso à rede mundial na vizinhança e logo comecei a explorar o IRC, o avô dos programas de chat.

Um ano mais tarde, comecei a brincar de fazer sites na Internet e, ao lado do ilustre senhor Leonardo Santos, lançamos o site “Inútil On-line”. Hospedado no finado Geocities, o conteúdo do sítio fazia jus ao nome.

Entre 1998 e 99, participei da primeira cobertura fotográfica “digital” de uma passeata em Brasília. Na época, trabalhava para o ZAZ Internet (atual Terra), e cobrimos a Marcha dos 100mil.

Combinamos com um laboratório fotográfico localizado próximo ao escritório do ZAZ, passei o dia tirando fotos com minha Pentax K1000. No final da tarde, corri para o laboratório que processou as mais de 100 imagens em tempo recorde.

No escritório, aceleramos para escanear as melhores para depois programarmos no HotDog HTML Editor a primeira galeria “digital” (nada de wordpress naquela época) de um evento político que o ZAZ colocava no ar como produção própria.

E o quico?

Assim como eu, cada um de nós que crescemos no meio desta revolução tecnológica tem histórias semelhantes. Ter vivido este processo na nossa infância, adolescência e ver esta indústria florescer na vida adulta não nos dá super poderes. Mas nos dá uma perspectiva diferente.

Nos permite compreender a origem de certas coisas e, quem sabe, alcançar soluções alternativas e inovadoras.

Estamos chegando à maturidade profissional, mais uma vez, surfando a crista da onda desta contínua (r)evolução tecnológica e consolidando a cultura eletrônica que ajudamos a formar.

Nos próximos anos, somos nós que vamos tomar as decisões que definirão os rumos destas mudanças.

Agora chegou a nossa vez.

A vez de mostrar se vamos apenas cuspir de volta o lixo que nos empurraram.

Ou se vamos fazer nosso dever de casa e ajudar a derrubar reis.

Somos o presente da nação!

E tem mais um vídeo interessante, para quem aguentou chegar até aqui:

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  • Emzarur

    Fernando,

    Excelente texto!!!!
    Parabéns pela sua visão de mundo!

  • Buubuu

    Vc também fez a primeira atualização de um site diretamente do Xingu.

  • Fernando Zarur

    É verdade, atualização diária de um blog em janeiro de 2001, por uma conexão 9600bps num telefone via satélite Globalstar… mas acho que isto aí merece um post especial. :)

  • http://1-mundo-melhor.blogspot.com David Borges

    Aiaiaia, mais um saudosista! Eu vivi isso tudo e não tenho nenhuma saudade. Tecnologicamente, hoje estamos incomparavelmente melhor. O passado no passado, onde ele pertence ;) O que eu penso sobre o assunto? Aqui -> http://1canto.blogspot.com/2007/12/police-se-reformou.html

    Fora a discordância sobre o fundo, a forma do artigo tem a maestria de sempre. Keep’em comin’!

    Abração Fernando!

  • Fernando Zarur

    Não quis ser saudosista no sentido de sentir falta daquela época e achar que ela deveria voltar.

    Muito pelo contrário!!

    O que eu acho interessante é justamente ter vivido esta transição, poder olhar para trás e ter a visão de como as coisas se desenvolveram.

    É ver a galera falando de “social network” como se fosse o ovo de colombo e lembrar do BBS. Acho maneiro ter vivido esta evolução.

    Acima de tudo, acho que a gente tem é que olhar para o futuro e ver que estamos entrando naquele ponto das nossas vidas de sermos “tomadores de decisão”, de desenharmos qual será o próximo passo.

    Já somos “velhinhos” o suficiente para termos a visão o passado e podermos agir no presente. Como eu disse, somos o presente!

    PS – Aliás, concordo plenamente com o seu post (http://1canto.blogspot.com/2007/12/police-se-reformou.html). Esse revival dos anos 80 virou um mega mercado. Também, pudera, os caras ganham 2x, com o pai e com o filho! Multiplica tudo por 2.

  • Guedes

    Fernando,Muito bom este texto, principalmente sobre o TK85, foi um sonho de consumo meu, eu tinha 15 anos em 1983 e era absolutamente louco por este micrinho, eu ficava dedilhando a imagem do teclado dele num folheto de propaganda que guardo até hoje. Em 1984, meu pai me presenteou com um TK2000 colorido, bem melhor, mas fiquei na vontade do tk85 até esta semana (maio/2011), quando comprei um no mercado livre. Hoje tenho filhos e vejo que não há absolutamente nada que eles desejem com a força que eu desejava certas coisas na minha época, como o Atari por exemplo, tudo se banalizou. Também concordo que tudo melhorou imensamente, mas o que dá saudade é a sensação da conquista de certas coisas. Hoje em dia compramos um note de R$ 7.000, e não sentimos nada, compramos kinect para os filhos, eles jogam um pouquinho e logo se esquecem. Acho que só os períodos de transição mesmo é que marcam.

  • Fernando

     Oi Guedes, valeu pelo comentário. Realmente, hoje o consumismo é outro. Especialmente para nossa geração que cresceu, também, com uma inflação mensal louca!

    Eu contava nos dedos de uma mão o número de “comandos em ação” que tinha e para mim era um evento especial visitar o “Bazar Barreto” em Sobradinho… bom, não dá para descrever, só quem vive por lá sabe como é.

    Por outro lado, a idéia do artigo não é só nostálgica, mas mostrar como somos a ponta desbravadora de uma nova era, nós somos o elo perdido entre um mundo analógico e digital. E, neste sentido, somos uma geração privilegiada.

  • Guedes

    É verdade, foi um tempo marcante de transformações e mesmo quando vivíamos isso, percebíamos o que estava ocorrendo, uma grande transição, hoje está tudo mais contínuo, ninguém percebe claramente mudanças significativas que revolucionem a vida, pelo menos nos últimos 10 anos. E realmente não é só nostalgia, eu particularmente não troco 1 dia de hoje por um ano de antigamente, está infinitamente melhor agora.