Guerra total – wikileaks e a comunicação no século XXI

“O alcance global e instantâneo do sítio (wikileaks) representa um desafio não apenas a segredos de estado por toda parte, mas também para a própria ideia de ‘governo’ em sua essência”, Mark Feldstein, professor de mídia e relações públicas na George Washington University.

Desde a primeira vez que li sobre o wikileaks fiquei fascinado.

E não foi necessariamente o conteúdo de seus vazamentos que me impressionou, mas seu impacto a longo prazo, a capacidade que Julian Assange e seu grupo tiveram de usar a web para subverter o status quo do controle da informação e as velhas alianças político-midiáticas.

Não se iludam, o que está em jogo nesta polêmica não é a vida de pobres recrutas americanos ou agentes da CIA, como os governos tentam nos fazer crer. Está em cheque a capacidade destas mesmas oligarquias políticas em manipular o que nos é permitido saber, ou não, sobre os garotos que eles enviam a cada dia para a guerra.

Repressão sem fronteiras

A reação truculenta e desproporcional de países auto-proclamados “democráticos e livres” – incluindo prisões de adolescentes, tentativas de classificar o wikileaks como organização terrorista e até pedidos de execução sumária de seu fundador – transformaram o site no símbolo de uma nova política sem fronteiras.

A repressão governamental foi virulenta, explícita e internacionalmente orquestrada: o cidadão australiano, Assange, foi preso na Inglaterra, sob acusação de “crimes sexuais” na Suécia. Enquanto isso, os EUA tentam destruir conceitos pétreos de sua constituição – famosa pela defesa da liberdade de expressão – para tentar enquadrá-lo como espião.

Mas espião a serviço de quem? Qual o inimigo que o emprega?

Assange foi caçado pela Interpol, sob alerta vermelho, pela seguinte acusação: durante uma sessão de sexo consensual, o preservativo rompeu, tendo sido retirado. Na Suécia, este ato é equivalente a estupro com pena de até dois anos de prisão.

O processo, raramente explicado em seus detalhes, acontece num momento, no mínimo, ligeiramente suspeito…

Tudo isso transforma Assange num mártir da liberdade de expressão no século XXI, herói de um novo tipo de guerra cibernética.

Com a pressão governamental, empresas como Amazon, Paypal, Visa e Mastercard se recusaram a processar as doações para o sítio. Este ato absurdo, coloca em cheque a idéia de uma economia digital independente e demonstra a vulnerabilidade do sistema ao controle político.

A resposta da comunidade cibernética foi imediata.

Primeiro, o site do wikileaks passou a ser servido por voluntários e sua informação está agora dispersa pela rede.

Depois, diversos grupos se organizaram para lançar ataques de negação de serviço contra as empresas que boicotaram o wikileaks. Tudo pela defesa de uma internet livre.

O wikileaks é apenas sintoma

Sintoma de uma mudança estrutural na maneira como produzimos, divulgamos e consumimos informação.

O wikileaks fere a lógica essencial do agendamento, da troca de favores, do controle indireto, da censura prévia e do “coleguismo” que sempre existe – em menor ou maior grau – entre a imprensa e forças políticas dominantes.

O wikileaks fere a capacidade dos governos em manipular dados, relatórios e justificar o injustificável.

A falta de controle sobre a informação é algo que governo nenhum tolera, mesmo os que se dizem a favor da liberdade de expressão.

EUA, Inglaterra, Holanda, Suécia, e demais governos envolvidos nesta novela estão gastando todos seus cartuchos e empenhando seu peso repressivo por uma única razão: cada um de nós teves a oportunidade de espionar, por muito pouco tempo, o que é a política internacional no dia-a-dia, vimos o outro lado do espelho de forma nua e crua.

Nós, o público, somos os empregadores do “espião” Assange.

No dia 20 de Março de 2003, os EUA começou a invasão do Iraque sob a alegação mentirosa de que o regime de Saddam Hussein estava desenvolvendo armas de destruição em massa.

Até 2010, a guerra já havia matado cerca de 100mil civis iraquianos (iraqbodycount.org) e 4mil soldados de tropas aliadas.

Será que esta farsa – que assassinou milhares e milhares – teria sido sustentável se um wikileaks tivesse vazado os relatórios negando a existência de armas no Iraque, convenientemente ignorados por Bush, Tony Blair e outros da gangue?

Quem mata mais: wikileaks ou falta de transparência governamental?

Com a palavra, Julian Assange:


Para ter legenda em português:

Para ver legendas em português

Selecione "view subtitles" e escolha a legenda em português (clique para ampliar imagem)


Related Posts:

  • Elza

    Excelente análise, gostei muito de ler e suas conclusões teem tudo a ver!!!
    Parabéns!
    Elza