O olho do observador

Observador

(imagem original de Michael Jaecks)

“Beholder, ou Observador, é o nome dado a um tipo de criatura presente nos jogos de RPG. Possui corpo esférico, com um grande olho antimagia no centro e vários tentáculos no topo. Na ponta de cada um dos tentaculos há um olho capaz de realizar algum tipo de magia. As mais comuns são raios paralisantes, raios de gelo, raios de calor, correntes elétricas entre outras magias que são feitas em forma de raio”. Fonte: Wikipedia

Até pouco tempo atrás, na época da fotografia de filme, andar com uma câmera no bolso só para: fazer turismo, em dia de aniversário, batizado, formatura ou final de campeonato com o Mengão. Aliás, as câmeras nem cabiam no bolso.

E ninguém ia doar o suado salário, já carcomido pela inflação, para a Kodak tirando foto de tudo o que acontecia. Foto era – quase sempre – coisa posada, motivo para pentear o cabelo e lustrar o kichute.

Ou seja, tirar uma foto era um momento de certa forma, especial e ocasional.

Hoje para ter uma foto basta tirar o telefone do bolso, apontar e registrar o que for: 13mil fotos dos primeiros passos do bebê, aquele vôo de asa-delta no Pepê, o amiguinho vomitando aquele red label falso depois da formatura, o canalha que bateu no seu carro, a roupa que você pensa em comprar, o prato do restaurante, menino nascendo, esposa dormindo, passarinho voando, grama crescendo…

Depois é simples. Com dois cliques em qualquer telefone mais bem equipado – os ismartí foni – e a foto já está no Orkut, Facebook, Twitter.

De aí em diante, o bebê, o vômito do amiguinho, a batida do carro, a roupa, o prato, o filho, a esposa, o passarinho e a grama deixam de fazer parte da esfera da nossa vida privada. Tornam-se públicos nas nossas redes de broadcasting particular.

Milhões de olhos eletrônicos

Segundo o grupo Gartner, nos primeiros quatro meses de 2010 um total de 314.7 milhões de celulares foram vendidos. Destes, 54.3 milhões foram smart phones – um aumento de 48.7% em relação às vendas do ano anterior.

Ou seja, no mínimo do mínimo, do mínimo, temos 55milhões de novos olhos eletrônicos à espreita.

Big brother não é nada. Além do grande irmão controlado por um Estado opressor, agora temos os pequenos irmãos: os olhos digitais do cidadão comum a nos observar em qualquer lugar, a qualquer momento, silenciosamente.

Apocalípticos

A era da privacidade acabou.

Tudo é público. Você pode tentar se esconder, não publicar fotos pessoais. Mas a Internet é mais fote. Se você é um cidadão minimamente sociável, fatalmente algum camaradinha vai publicar uma foto sua online.

De agora em diante, qualquer pessoa está exposta a ter sua imagem divulgada de forma massiva e sem controle.

Aquele vexame do carnaval passado pode reaparecer a qualquer momento sob forma de foto ou vídeo na Internet. Aquele momento de fraqueza, o vacilo, a trapalhada – qualquer coisa pode lhe transformar no novo hit do YouTube, destruir carreiras, acabar com casamentos.

Um exemplo cruel disso é o fenômeno do “sexting“, nome dado ao ato de se trocar fotos e/ou vídeos eróticos via meio eletrônico (celular ou email).

A moda pegou entre adolescentes americanos e, como é de costume no lado puritamo e falso-moralista dos E.U.A., o “sexting” foi rapidamente declarado como inimigo público número 1. A histeria começou depois de um caso trágico, no qual uma adolescente se suicidou depois que suas fotos circularam pelo colégio.

A questão ética é profunda e complicada, especialmente porque a maior parte destas fotos são consideradas “pornografia infantil” mesmo se forem feitas pelas próprias crianças.

Integrados

Por outro lado, ter uma câmera no bolso pode ser uma arma a favor da democracia.

Provavelmente o caso mais clássico é o de Neda Soltani, assassinada durante os protestos contra os resultados das eleições de 2009 que reelegeram o presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Sua morte foi acompanhada em detalhes por vários telefones celulares e, em minutos, circulou o mundo, tornando-se num dos maiores testemunhos da estupidez do atual regime Iraniano.

Outro exemplo são as chocantes imagens das torturas realizadas por soldados americanos na prisão de Abu Ghraib, Iraque.

As fotos mostraram ao mundo a real face do tratamento dado aos prisioneiros americanos durante a guerra e desmascaram o falso verniz de “salvadores da liberdade” que o tio Sam ainda tentava se impor.

Da mesma forma que expõe o particular, uma câmera também oferece ao indivíduo a possibilidade de denunciar e expor o Estado, uma corporação, um criminoso. Principalmente quando as três entidades se materializam de maneira única.

Como já diziam nossas avós: tecnologia é uma faca de dois legumes. Muda nossa vida, sem se perguntar se bom ou ruim.

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  • Carlos Zarur

    Seus comentários são pertinentes, principalmente porque nos acostumamos com a perda da nossa individualidade e do sagrado momento da solidão.
    Em 2004, quando as coisas ainda não tinham chegado ao que vivemos hoje em matéria de exposição, escrevi o artigo abaixo:

    O Olho Mau
    Carlos Zarur . 09 de Agosto, 2004

    Estamos vivendo, de fato, a previsão inusitada de George Orwel quando escreveu o clássico 1984. Todos controlados por câmaras de fiscalização frias a serviço da ditadura da imagem.

    A cada passo, em qualquer momento. Dentro de casa, nos instantes mais íntimos. Lá estão elas controlando nossas vidas, as coisas simples, as horas mais particulares.

    Hoje, já começamos a experimentar essa realidade de maneira intensa. Temos a forte influência da televisão no nosso dia a dia. Interativa, criando comportamentos contra os quais não podemos resistir.

    Como exemplo: a violência. A televisão é sua cúmplice. Enquanto denuncia por um lado a onda torpe de agressões que vivemos no nosso dia a dia, por outro lado, fomenta o ódio, levando às nossas casas cenas cruas de sangue, banalizando a vida e a morte.

    As tecnologias diminuíram as câmaras e simplificaram as transmissões. Com isso criou-se outro tipo de violência: a que não respeita o direito inalienável da inviolabilidade do homem.

    Com a desculpa de denunciar, o repórter invade a casa e, sem avisar, filma e grava. Com o pretexto da segurança, somos filmados, também sem prévio aviso, nas ruas, nos prédios, nos elevadores. Somos artistas, sem saber, de um drama previamente anunciado.

    A propaganda usando da avançada psicologia e da tecnologia moderna nos desperta vontades de consumir, sem sabermos porque. De seguirmos em determinada direção, como cegos, sem termos a mínima idéia para onde. Nos vende, prontos, como mais um produto, os políticos que vão nos comandar durante anos, sem nos dar o direito de ter uma tênue discordância.

    Dentro desse contexto, é necessário analisar práticas que fogem ao julgamento ético tradicional, pois são como lobos disfarçados em peles de cordeiros. Aparentam uma boa ação, mas, na verdade, corroem a sociedade com falsos dogmas.

    Isso me lembra a reação americana ao condenável atentado às torres gêmeas em Nova York. Prenderam sem aviso, interrogando pessoas que não têm respeitado o direito básico de chamar um advogado. Mantêm, como animais, em um campo de concentração, em Cuba, seres humanos que nem o direito a um julgamento tiveram. É a reação a uma ação má com atos no mínimo condenáveis. Em decorrência, invadiram o Iraque, tendo como aliada a informação engajada. Transmitiram o que quiseram ao vivo e nos venderam a “guerra necessária do bem contra o mal”.

    Essa maneira de pensar trouxe as câmaras ao nosso cotidiano, “para nos defender”. Trouxe os radares que multam sem que tenhamos o direito de contestar, “para impedir acidentes”. Trouxe às nossas casas filmes de TV violentos, em qualquer horário, acompanhados dos telejornais que denunciam, indignados a violência das ruas. Mostrou-nos, em nossos sofás confortáveis, as cenas cruas da guerra, onde crianças morrem aos nossos pés, na nossa sala de estar.

    Houve, como previu Orwel, a invasão da nossa intimidade disfarçada de boas intenções. Logo seremos bilhões de “voyeurs” vendo, doentiamente, a vida e a morte alheia. Controlados para a servidão total da sociedade, através da disfarçada ditadura do bem virtual.