Em abril de 2010 o parlamento inglês assinou uma declaração de guerra: o Digital Economy Bill (Lei da Economia Digital).
Guerra declarada contra a privacidade dos cidadãos britânicos.
A lei é uma espécie de estrela da morte contra os direitos do indivíduo, especialmente ao permitir que empresas privadas lucrem com a caça de IPs que estiverem usando serviços, como o bit-torrent, para trocar arquivos protegidos por copyright.
Apesar da gritaria dos provedores e de diversos protestos contra a evidente estupidez da legislação, a pressão e o lobby da indústria cultural garantiu uma aprovação recorde para o projeto no parlamento.
Entre os maiores financiadores do esquema de aprovação estão a Motion Picture Association of America (MPAA) e a Recording Industry Association of America (RIAA) – além de dezenas de empresas que mal podiam esperar para começar a exploração do novo filão legal: a espionagem de usuários de Internet.
A Inglaterra não está sozinha. Na França, uma lei similar é defendida pelo governo Sarkozy (o mesmo que oficializou a discriminação contra os ciganos) está sendo analisada. Outros países europeus também começam a cogitar algo no mesmo sentido…
O império se organiza.
Operação vingança: “piratas” contra-atacam
Tão rápida quanto a pressão dos burocratas que ganham a vida com o arte dos outros, foi a organização de uma verdadeira guerrilha virtual em oposição ao cerco oficial contra os “rebeldes”.
O contra-ataque foi tramado nas mal-iluminadas e enfumaçadas salas de bate-papo do 4chan – a base rebelde na internet. Uma espécie de versão virtual da Mos Eisley Cantina.
Além da lei britânica, os “rebeldes” também pretendiam reagir às ações da justiça contra o site sueco Pirate Bay (símbolo do movimento contra as leis de direitos autorais). Graças aos esforços da indústria cultura em criminalizar os donos do site, eles se tornaram mestres jedis da causa.
Bem, a comunidade virtual reagiu: em 20/07/2010 ambos os sites da MPAA e da RIAA foram derrubados por torpedos de Distributed Denial of Service (DDoS).
Não tenho a menor ideia do que seja isso, mas tem nome de arma de guerra.
E não é por acaso que um dos programas utilizados para gerar um DDoS chama-se canhão iônico de órbita baixa (low orbit ion cannon).
ACS Law e a lei
Do lado do império, surge um campeão: a empresa ACS Law e seu presidente Andrew Crossley – um Jabba the hut mais rosado e bunda mole.
Contratada para perseguir usuários de internet, a empresa foi uma das maiores beneficiadas com a nova lei britânica e especializou-se em lucrar com a bisbilhotagem sistemática da vida alheia.
Mas também tornou-se um dos alvos preferidos dos ativistas virtuais.
Principalmente depois que o fanfarrão chefe da firma, o tal do Mr. Crossley, desafiou a todos os “rebeldes” dizendo que não estava nenhum pouco preocupado com os ataques virtuais…
A resposta veio na segunda-feira, 27 de setembro de 2010.
Após derrubar o site da ACS Law, os hackers conseguiram acessar um arquivo Excell desprotegido (tsc, tsc, Mr. Crossley) com o nome de 5.300 pessoas e os respectivos filmes pornográficos que eles teriam baixado de forma ilegal – expondo, assim, a maneira leviana como a empresa tratava as informações privadas de suas vítimas.
O golpe é genial.
Primeiro, demonstra – mais uma vez – como a lei britânica despreza o direito do indivíduo à privacidade.
Também desmorona o argumento da “absoluta segurança de dados dos indivíduos” usado pela ACS Law e outros defensores do sistema que pretendem ganhar dinheiro com este novo mercado ao afirmar que nossos dados pessoais estão seguros nas suas mãos.
Isso para não falar na maravilha que será ver o mister Crossley respondendo a – no mínimo – 5300 processos judiciais. Nada como o feitiço contra o feiticeiro…
Piratas?
A garotada que hoje tem 15 a 18 anos cresceu num contexto, promovido pela Internet, no qual a cultura é menos uma mercadoria e mais algo que se troca, se produz, se remixa. Esta geração vê a produção cultural como algo livre.
Esta é uma geração de Skywalkers que agora também se mostra pronta a se organizar e contra atacar.
Enquanto isso, a indústria cultural e seus lacaios continuam pensando que o que vem de baixo não os atinge.
Quando é que vão perceber que estão sentados no formigueiro?
Para ler mais (em inglês – infelizmente não vi a notícia publicada no Brasil):

