Mesmo perdendo por 2 x 1 pro Vitória, o Santos ontem ganhou a Copa do Brasil.
A garotada santista subiu ao palco e, com a taça nas mãos, gritaram o que todo mundo grita quando ganha um campeonato de futebol:
- Aham, aham, amanhã tem twitcam!!! Aham, aham, amanhã tem twitcam!!!
Bom, não sei você, mas eu ainda sou do tempo em que se comemorava gritando “É cam-peãoooo, é cam-peãoooo…”.
Twitcam: serviço de broadcasting pessoal
A história é a seguinte. Na dia anterior ao título, alguns jogadores do peixe entraram no tal twitcam e organizaram um bate-papo que acabou em leve troca de indelicadezas e o uso de vernáculo de baixo calão entre os meninos e a torcida.
Depois do ocorrido, a assessoria de imprensa do clube viu-se obrigada a fazer uma espécie de “twitcam” oficial para que os garotos pudessem pedir desculpas aos torcedores e suas mães.
Este é só mais uma história que reflete a escrabosamente rápida – e ainda em plena aceleração – transformação da paisagem da comunicação.
Para quem não conhece, o twitcam é um serviço que permite a qualquer bípede (atacante do Santos ou não, com moicano de pica-pau ou não) a integrar transmição de vídeo ao vivo com bate-papo via Twitter. A idéia é genial e vem ganhando adeptos, principalmente no Brasil.
O modelo é bem inteligente. Serviços de transmissão de vídeo ao vivo (live video streaming) existem vários. O pulo do gato, neste caso, é a integração com o twitter e outras redes sociais.
Só quem não cala a boca é o twitter!
Já que estamos neste assunto, nos últimos meses o twitter virou epidemia em terras tupiniquins gerando até um certo domínio nacional. A Copa do Mundo serviu para cristalizar isso, principalmente com a o singelo e educado pedido de “Cala Boca Galvão“. Depois veio “Felipe Melo me deve um feriado“.
Aliás, o movimento “cala a boca” gerou derivados como o “Cala Boca Stallone“, depois que o acéfalo ex-ator pornô resolveu destilar sua equilibrada análise sociólogica sobre o Brasil.
É bem engraçado ver os gringos perguntando o que é “cala a boca” ou quem “Mr. Galváu Buenou”. Já tem até americano dizendo que o twitter está controlado por uma “brazilian mafia”.
No início de 2010, a Sysomos, empresa especializada em estatísticas sobre mídias sociais, lançou um estudo indicando um aumento de mais de 4x no número de usuários de twitter no Brasil. A percentagem pulou de 2% em Junho de 2009 para 8.8% em janeiro.
Veja o gráfico do número de usuários do Twitter por país (Sysomos / Jan 2010):
Zunindo na colméia
O mais bacana é pensar que estes fenômenos via twitter ou email, ou orkut, etc… acontecem de forma descentralizada e espontaneomente.
O controle da mensagem não depende exclusivamente da pauta da última edição do jornal nacional. Em todos estes casos a chamada “mídia tradicional” não fez nada mais do que correr atrás, acompanhar e retransmitir o que todo mundo já sabia via twitter.
O Galvão, diga-se de passagem, até reagiu muito bem, tentando levar tudo na brincadeira. Stallone pediu desculpas. Mas o que começou e consolidou estas discussões públicas não foi o poder monolítico das mega corporações midiáticas e seus interesses pessoais. Foram milhares de conversas individuais, pequenas conexôes que juntas produzem algo maior.
Este é o conceito central do twitter, facilitar a comunicação entre indivíduos, conectar micro redes, promover este zunido dentro da colméia que é a Internet. É a plataforma perfeita para se espalhar o “boca-a-boca”, consolidar “epidemias midiáticas” (aliás, estou começando a ler um livro agora exatamente sobre este assunto que parece ser interessante: Tipping Point, do Malcolm Gladwell).
Claro, ainda estamos falando de uma elite. Uma fatia da população nacional que tem acesso à internet, que pode comprar um computador, sabe ler e escrever, etc. Mas, pelo menos para os brasileiros, algumas barreiras estão caindo. Atualmente é aqui onde o acesso à Internet mais cresce no mundo. E, em breve, o acesso via internet móvel (telefone celular, netbooks, etc) vai acelerar ainda mais este processo.
Agora com o começo da campanha eleitoral para presidente no rádio e na TV, vamos ver como a Internet se comporta. O twitter já virou um dos instrumentos favoritos dos presidenciáveis, todos dizem que usam e amam a ferramenta.
Estou mais interessado, no entanto, em ver o que eles não amam e não controlam.
Torço para rolar algum vazamento via wikileaks, outra campanha de “cala a boca” ou qualquer iniciativa que nos ajude a democratizar a informação neste país. Para isso, minha esperança reside bem longe da nossa lustrosa e comprometida “imprensa tradicional”.



