Caros amigos do esporte bretão, para esquecer a derrota fragorosa do Mengão na piscina olímpica do Maracanã na nefasta noite de ontem, resolvi escrever sobre o assunto que vai dividir o ano com o carnaval: eleições.
Aliás, antes de começar, famos esclarecer uma coisa: todo mundo já está ligado que o 2010 não existe na prática, certo? Para quem não sabe é só fazer a matemática simples. A cada quatro anos o Brasil passa por uma espécie de ano criogênico. Ou seja, um ano que fica congelado como se o tempo não passasse… até de repente pularmos para o ano seguinte.
Veja bem, caros leitores (é no plural porque ambos, meu pai e minha mãe lêem este blog!). A cada 4 anos começamos passando mal na praia em torno de restos de oferendas a Yemanjá, depois vem carnaval, páscoa, Copa do Mundo, Eleições e… puff! Ano acabou.
O efeito Obama
Então vamos falar um pouco de comunicação e o que deve vir por aí em termos de campanha eleitoral.
2010 promete ser diferente. Até que ponto, ainda é difícil dizer. Difícil dizer porque é nítido a falta de habilidade e de cultura de internet de alguns de nossos coleguinhas em lidar com os novos meios. Porque não dizer, com os novos tempos?
Em 2008, a campanha de Barack Obama marcou um “antes e depois” no que se refere a campanha política. Você acha que não? Então saca só estes números: a campanha dos democratas levantou $200 milhões online, com um recorde de $55 milhões apenas em fevereiro, praticamente $2 milhões por dia.
É claro, conteúdo é tudo e o Obama é um conteúdo extremamente “fácil” de ser vendido. Mesmo assim, não podemos esquecer que as barreiras também eram enormes, afinal um filho de Queniano, casado com uma mulher branca tornar-se presidente americano era algo ligeiramente improvável. Mas o fato é que este ótimo “conteúdo” foi habilmente manipulado e potencializado, com auxílio dos amiguinhos do Google, explorando tudo o que se tem direito: blogs, vídeos, mídias sociais, email, internet móvel, etc. O resultado foi fantástico, um verdadeiro estudo de caso a ser seguido.
De baixo pra cima!
Não foi à toa que numa visita à sede do Google em 2007, Obama disse “o que nós compartilhamos a crença em mudar o mundo de baixo para cima, e não de cima para baixo”. Este é o grande potencial de mudança que a Internet nos traz, a oportunidade de transformar o debate político em um verdadeiro movimento que nasce na sociedade. É o que os americanos chamam de ativismo de “raiz de grama” (grassroots), simbolizando exatamente algo que nasce debaixo, das raízes.
Teoricamente, esta campanha no Brasil deve(ria) demonstrar uma aplicação do que foi aprendido pela eleição do Obama. Obviamente, nós temos nossas peculiaridades, uma delas sendo “conteúdo” de baixa qualidade… alguns até, de baixo calão. Porém, há sim uma tendência a se nivelar a “batalha” pela opinião pública, abrindo flancos para candidatos como, por exemplo, Marina Silva.
Recentemente uma notícia do G1 tratava do assunto: PSDB, PT e PV investem em ‘militância virtual’. E o sutiã destacava: “Tucanos criaram página com dicas para interação de eleitores. PT abriu cadastro para internautas; PV tem rede social própria”.
Bom, convenhamos, grandes merrecas ter uma página com dicas ou um cadastro. PelamordeJah! Se os dois candidatos líderes nas pesquisas para a presidência estão tirando onda com tamanha miséria, é de se pensar em instalar uma bolsa-estratégia-de-internet para os pobrezinhos.
O pessoal do PV ficou todo animadinho, plagiou uma foto do Obama, saiu-se com a desculpa esfarrapada de que uma tribo na Amazônia” fez o desenho e saiu dizendo por aí que fez um çaite de sócial mídia igual dos amercanu!
A Rede Mobiliza do PSDB chega um pouco mais próximo desta idéia de interação, apesar de ainda me parecer distante e “artificial”. Ainda é algo de cima para baixo, não de baixo para cima.
O desenho é bonito, mas não deixa de ser um plágio meio Paraguaio, mas o pior é dizer que criaram uma rede social. O conteúdo da www.minhamarina.org.br não podia ser mais distante de uma idéia de rede social, nada mais é que uma lista de notícias sem graça, estilo “press release”, no gênero mais tradicional possível.
Ok, talvez o Brasil ainda não esteja lá. Há quem possa argumentar que nosso país não tem a mesma estrutura tecnológica, que a Internet não é tão disseminada, etc… Beleza, é verdade, talvez nossas eleições ainda sejam definidas por coronelismos PMDBistas. Especialmente com as nossas desigualdades sociais.
Mas também é verdade que o Brasil é onde o acesso a Internet mais cresce. O brasileiro é um internauta especialmente “viciado”, que passa horas online. E a geração, de classe média pra cima, que hoje tem idade para votar, nasceu junto com a Internet comercial. Para eles, estar online é mais natural do que assistir o jornal nacional.
Para esta galera, o que nós precisamos é mudar a lógica da comunicação. Precisamos ouvir, estar prontos para responder de forma pessoal, é uma conversa. E as pessoas querem participar ativamente, não apenas assistir de forma passiva. A Internet colocou na nossa casa uma janela participativa e há um público sedento para apoiar.
Desde o início da campanha dos EUA, estive cadastrado nas listas do Obama. Recebo, até hoje, emails semanais e feitos para serem “pessoais”. Durante a campanha, recebia alertas constantes, mensagens diretas do candidato, chamados para ação e participação em debates, etc. Se fosse americano e estivesse lá, eu me sentiria um verdadeiro voluntário virtual.
No Brasil, ainda precisamos fazer nossa tradicional antropofagia dessas ideas. Fica a dica de aprendermos com quem já faz isso há trocentos anos: a galera do rádio. Estes sabem muito bem o que é ouvir, interagir e gerar participação. Vale aprender com eles, entender que precisamos atender às necessidades básicas para qualquer projeto que use mídias sociais.


