Revolução do acaju

Não sei como a coisa anda hoje, mas no fim do século passado, todo mundo em Brasília tocava alguma coisa, tinha alguma banda, enfim estava criando música. Era um momento bacana e o tipo da coisa que você só começa a entender quando se distancia dele – no tempo e no espaço.

Foram também nestes longínquos anos 90 que surgiu algo que seria o catalisador que esta geração de músicos precisava parar sair dos limites do quadrilátero do DF e dos modelos tradicionais do mercado musical: a internet.

O resultado desta combinação foi decisiva para que gente como o pessoal do Móveis Coloniais de Acaju (MCA) conseguisse alcançar o sul maravilha e daí o Brasil inteiro. A trajetória dos caras é um exemplo maravilhoso deste lado positivo e liberador da Internet.

Guitarrista, show do Móveis Coloniais de Acaju em 2005 (Foto: Fernando Zarur)

Show do Móveis Coloniais de Acaju em 2005 (Foto: Fernando Zarur)

Há muito… muito tempo atrás

Brasília ganhou notoriedade como celeiro do rock nacional nos finados anos 80. Naquela época, a vida parece que passava mais devagar: tinha guardinha naquelas guaritas da Granja do Torto, meu pai andava de Variant e cinto de segurança era coisa de fresco.

Naquela época já acontecia o que pode ser chamado de uma primeira revolução para a divulgação de bandas independentes: a fita demo.

Foi com uma fita K7 que Renato Russo apresentou seus amigos do Paralamas aos produtores cariocas. Foi deste modo que uma geração inteira do rock nacional conseguiu tomar as rédeas da etapa inicial de divulgação.

Mesmo assim, a fita-demo era apenas um primeiro passo e ainda dependia de um círculo fechado de relações pessoais. Os próximos passos – gravação, distribuição, etc – ainda estavam na mão das gravadoras, que passaram a mirar o lucro rápido, fácil e seguro.

O resultado foi a diarréia musical que inundou o mercado nos anos 90 na base do jabá e de Faustão, empurrando guela abaixo os “é-o-tchans” da vida, rock pouco criativo, padronização de estilos e outros subprodutos fecais.

Há algum tempo atrás

Graças a todos os Deuses, a Internet apareceu para mostrar que ouvido não é pinico.

Acompanhei boa parte da história dos Móveis e, desde o começo, a banda adotou a Internet como trampolim para divulgação e disseminação do trabalho.

O fato é que no final dos anos 90 os equipamentos de gravação profissional tornaram-se mais acessíveis e a Internet abriu a caixa de pandora da distribuição. Os Móveis surfaram nesta onda do lago Paranoá desde o início e com muita competência.

Ok, pode ter sido mais fácil porque a banda sempre trabalhou duro e é composta por nerds da melhor estirpe e competentíssimos comunicadores.

Estes poderes secretos aliados à energia dos caras no palco gerou a entalpia necessária para que eles pudessem estar por aí, explodindo nos festivais país a fora.

Até o nome da banda foi achado na Internet, quando os mais eruditos do grupo pesquisaram a famosa revolta do Acaju (rebelião ocorrida no sertão pernambucano, quando artesãos se revoltaram contra a decisão dos governantes Holandeses que obrigaram a incipiente indústria de móveis local a produzir tamancos que seriam exportados para a região de Flandres).

Voltando ao papo nerd, ainda lembro claramente quando percebi pela primeira vez que os caras dos móveis estavam ficando realmente famosinhos. Na época eu trabalhava num dos mais luxuosos endereços de Brasília, o suntuoso “Boulevard Center” – popularmente conhecido como edifício CONIC. Em Brasília este nome remonta ao melhor da arquitetura e refinamento francês.

Foi lá mesmo, por volta de 2002, que ouvi uma colega minha de trabalho começar a falar de uma banda “muito maneira” que ia tocar naquele barracão da UnB.

O mais legal é que ela não apenas tinha ido a shows dos Móveis em Brasília, mas acompanhava o site dos caras (não, na época twitter era apenas algo que os preibói colocavam no som do carro).

Bom, ela compartilhava a empolgação em relação ao show via MSN com os amigos e etc. O que já naquela época começou a gerar um boca-a-boca virtual fantástico para a banda.

Certo tempo mais tarde, outro evento dos móveis me chocou. Eles fizeram um show no Arena que, não apenas lotou, mas transbordava de gente – especialmente uma galera mais novinha. No final da apresentação, a loucura era total e a relação público/banda era algo que nunca vi igual, culminando com uma ciranda gigante envolvendo banda, público, zelador, cachorro, gato, periquito…

Sente o drama da parada:

Hoje

Ao meu ver, esta ciranda simboliza de forma bacana o que eles conseguiram levar para internet. Hoje os Móveis tem uma legião de fãs que os acompanham virtualmente:

  • O site é oficial é maneiríssimo e atualizado
  • No Orkut eles contabilizam no momento 22,249 fãs
  • Os discos são lançados na web pela Trama Virtual, onde é fácil baixar todas as músicas gratuitamente
  • Eles aproveitam o twitter de forma total, com muita gente na banda interagindo e conversando com os fãs
  • Até na caralha do Google Buzz eles já estão…

E os caras sabem aproveitar todo este papo de convergência com uma agilidade muito boa. O site dos caras está infestado de vídeos, músicas para baixar, letras e até conteúdo para iPod.

Isso é ralação, laiá-laiá casca grossa minha gente!

Mas é trabalho prazeroso quando se constrói algo independente, quando não se tem um contrato e o feitor a dar chibatada e pitaco desnecessário. E aí está a diferença radical entre hoje e antes. Todas estas ferramentas de comunicação estão nas mãos da banda, sem intermediários.

Pode deixar, tá acabando… (ufa!)

(Não sei se algum cristão sobreviveu até este ponto do texto… mas tem mais!)

Tudo bem, também a própria galera dos Móveis são os primeiros a confirmar que o jatinho particular ainda é um sonho distante…

Mas, ao meu ver, até nisso a trajetória do MCA é simbólica – um sinal dos novos tempos.

A era do pop e do mega-hit mundial chegou ao seu apogeu em 1982 com Thriller do Michael Jackson, disco mais vendido da história passando de 20 milhões de cópias.

De lá pra cá, a história mudou e a indústria da música apequenou-se, para o bem ou para o mal/u. Eu acho isso algo positivo. É claro que ainda estamos muito longe de uma total revolução e é óbvio que as grandes gravadoras ainda dominam o marcado.

Mas a revolução alardeada pelas trombetas winsock vêm produzindo brechas por onde já escorre muita água trazendo inovação, criatividade e um verdadeiro “bafo de ar fresco” (como se diz in ingrish).

Os móveis são mais uma gota, eu fico só esperando a porra da represa vir abaixo!

PS – Não sou apenas eu que acho isso não. Tem gente mais importante e provavelmente mais inteligente que acha o mesmo, veja aí: Nova cena do rock brasileiro vai além do trio guitarra, baixo e bateria

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    Texto excelente!
    O Móveis é um exemplo a ser seguido pelas novas bandas… eles questionam a indústria musical atual, inovaram e estabeleceram novas formas de distribuir música e descobriram como usar a internet e as redes sociais de um jeito genial para potencializar e viralizar seu trabalho.
    Além disso, ou também por causa disso, eles foram estabelecendo uma relação muito próxima com os fãs. Eu acompanho a banda desde 2006 e sou testemunha de que eles realmente acreditam que a interação banda-público é essencial para manter a vitalidade.
    Faço questão de ir em todos os shows que fazem em São Paulo e de ajudar a divulgar o trabalho deles. Esses meninos são os nerds mais descolados que eu já vi e merecem muito sucesso!