Os meios de produção

Segundo a teoria marxista, meios de produção são o conjunto formado por meios de trabalho e objetos de trabalho – ou tudo o que medeia a relação entre o trabalho humano e a natureza, no processo de transformação da própria natureza.

  • Os meios de trabalho incluem os instrumentos de produção: instalações prediais (fábricas, armazéns, silos etc), infraestrutura (abastecimento d’água,energia, transportes, telecomunicações, máquinas, ferramentas etc).
  • Os objetos de trabalho são os elementos sobre os quais ocorre o trabalho humano (recursos naturais (terra etc.) e matérias-primas (minerais, vegetais e animais).

Para Marx, a propriedade dos meios de produção determina a posição dominante da burguesia no modo de produção capitalista. O modo de produção é, por sua vez, determinante na organização da sociedade (Wikipedia)

A Internet representa a maior revolução na comunicação humana desde que o ourives Johannes Gutenberg resolveu abandonar as pepitas e construir a primeira prensa móvel em 1440.

Johannes Gutenberg, inventor da imprensa

Johannes Gutenberg, inventor da imprensa

Em sua época, a invenção de Gutenberg possibilitou a disseminação de informação em massa ao abaixar os custos e possibilitar a publicação de livros em larga escala. O acesso à informação desencadeou um processo revolucionário que derrubou sistemas políticos, criou novas ideias, economias, religiões, costumes…

Não é exagero dizer que a Internet vai no mesmo caminho. Mídias sociais, guerras virtuais, novos hábitos de compras, mudanças na relação de poder consumir-empresas, revoluções políticas são apenas os primeiros passos de um processo que promete ser duradouro.

Foice e martelo

E o ponto comum entre o hipertexto de Tim Berners-Lee e os tipos móveis de Gutenberg é que ambos democratizaram o acesso aos “meios de produção” da indústria midiática.

Karl Marx, conterrâneo do nosso amigo Gutenberg, dizia que a “propriedade dos meios de produção determinam a posição dominante da burguesia e o modo de produção capitalista”. Logo, podemos dizer que a democratização destes meios terá efeito devastador na maneira em como nos organizamos como sociedade.

O coração da revolução atual é o mesmo da Alemanha medieval: a democratização do acesso aos “meios de produção” e aos “objetos de trabalho”. Ou seja, o fim das indústrias intermediárias, dos atravessadores, de filtros sujeitos à manipulação.

O primeiro livro produzido em massa foi a famosa Bíblia de Gutenberg e não foi à toa que a democratização do acesso à palavra de Deus foi um dos pilares da Reforma Protestante que desafiava o poder do Papa como “intermediário” divino.

Mesmo sem facebook naquele tempo, Martin Lutero fez “95 posts” na “wall” de uma igreja de Mainz dizendo coisas do tipo: “Qualquer cristão que está verdadeiramente contrito tem remissão plena tanto da pena como da culpa, que são suas dívidas, mesmo sem uma carta de indulgência.”

Nossa revolução começou em estágios mais mundanos. Mas nem por isso os efeitos são menores.

Se sou um consumidor destratado, tenho como elevar minha voz. Também não preciso mais me submeter a um vendedor – treinado em me persuadir a comprar o que não quero. Se estou em uma loja, munido de um smartphone, posso rapidamente pesquisar a opinião independente de centenas de outros compradores que avaliaram o mesmo produto que pretendo adquirir.

Se sou artista, não preciso mais me prostituir para uma gravadora musical. Durante anos fomos obrigados a engolir artistas fabricados para o mercado, álbums compostos por marqueteiros e pagamos preços altos para o consumo de cultura barata.

É negando estes atravessadores desnecessários que estamos vendo um renascer criativo fora do domínio de gravadoras e seus executivos.

“A banda mais bonita da cidade” é um exemplo de como se pode dominar com competência os meios de produção e distribuição que a comunicação digital nos oferece.

O grupo utiliza o site catarse.me para possibilitar que os fãs financiem seu disco diretamente. Se você quiser ver “Canção pra Não Voltar” no álbum, basta pagar quantias que iniciam em 10R$ para garanti-la no disco, assim o conjunto tem total domínio de seu processo criativo.

Mas o maior sucesso da banda foi o uso inteligente do YouTube. Os mais de 6 milhões de visualizaçõeszinhas do videozinho bonitinho daquela musiquinha fofinha, “Oração” me deixou pensando em duas coisas:

  1. Como é fantástico o potencial viral da internet;
  2. Como eu queria que o João Gordo aparecesse no meio do clipe e fizesse aquele rapaz comer a margarida que ele carrega no bolso.

Que seja eterna enquanto dure…

Por enquanto, a Internet está aí para acabar com os intermediários e abrir portas. Nossa geração tem o privilégio de viver um daqueles momentos quando é possível chacoalhar a poeira de velhos valores, inverter a lógica de  jogos de poder, tomar conta do próprio rumo e inovar.

Mas é preciso pressa. Assim como a imprensa de Gutenberg, uma hora os ventos se acalmam e alguém senta para comandar a máquina mais uma vez.

A própria reforma protestante – que semeou a liberdade religiosa e chegou a pregar a ligação de cada indivíduo com o divino – terminou em alianças que mais uma vez transformaram a fé em instrumento de manipulação política.

Coincidência ou não, nesta semana o Papa Bento XVI enviou seu primeiro twitter. Daqui a pouco, quem sabe não poderemos pagar nossas indulgências via paypal?

Como já dizia Vandré, “quem sabe faz a hora” e caminha com “a certeza na frente, a história na mão”.

Vídeo da música oração (não recomendado a diabéticos):

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Como criar um Bolsonaro

A alquimia possui três objetivos:
1. Transmutar metais inferiores em ouro,
2. fabricar o elixir da longa vida e
3. criar vida humana artificial a partir de materiais inanimados (um clone humano na acepção moderna), os homúnculos.

Wikipedia

Na alquimia, o homúnculo seria um mini-homem que poderia ser criado para obedecer ordens.

Na alquimia, o homúnculo seria um pequeno ser que poderia ser criado para obedecer ordens.

De acordo com a receita do alquimista Paracelso, fabricar um homúnculo era simples. Bastava acumular “um pouco de sémen humano posto em uma retorta hermeticamente fechada e aquecida em esterco de cavalo durante 40 dias”. Ao fim deste período teríamos um ser humano apequenado à nossa disposição.
Para fabricarmos um Bolsonaro, a receita tem ingredientes à altura.

Primeiro, precisamos de uma mídia sensacionalista sempre ávida por um escândalo, louca para vender polêmica.

Adicione aí um obscuro deputado federal, normalmente resignado à sua insignificante vida de devaneios racistas, homofóbicos, militaristas e de apologia à violência.

Misture os dois num contexto de liberalização moral num país de forte tradição católica. Ponha tudo num forno televisivo e alimente com ódio.

Pronto, temos os ingredientes perfeitos para um desastre.

Receita de bolo

Desde que destratou Preta Gil em edição do programa CQC, destilando sua usual lista de intempérios, Bolsonaro iniciou uma era dourada para sua carreira política.

Até então, o ex-militar desfrutava de notória insignificância, encostado em sua sexta legislatura como deputado federal pelo Rio de Janeiro, provavelmente eleito seguidamente pelo mesmo punhado de ex e atuais torturadores que ele defende. E assim permaneceria, apenas mais um folclórico congressita, se não fosse o grande favor do CQC.

Ao deliberadamente selecioná-lo para alimentar sua máquina semanal de polêmicas, o CQC serviu de plataforma para lançá-lo como porta-voz da extrema-direita em âmbito nacional.

É claro, a reação contra Bolsonaro foi sonora e expressiva: gritaria nas mídias sociais, passeatas, processos judiciais, notas de repúdio, abaixo-assinados… uma avalanche midiática que, ao fim, só serve para engrandecer o mal que pretendem combater.

Falem mal, mas falem de mim

Aí reside o maior problema, Bolsonaros e demais seres políticos oriundos das profundezas se alimentam da discórdia. Para ser bem didático: atacar o Bolsonaro é como cutucar bosta, “quanto mais mexe, mais fede”.

Não importa se a cobertura é negativa.

O que estamos fazendo, agora, ao estampar o nome deste cidadão nas capas de jornal é ajudar a consolidar sua alcunha na cabeça de eleitores. Várias pesquisas comprovam o poder da repetição e a influência do “recall” na hora do voto. O eleitor muitas vezes escolhe o nome de alguém conhecido, mesmo que não lembre quem é ou em qual contexto ouviu falar do político.

Com seu poder de agendamento, a imprensa acaba por legitimar este indivíduo como líder de uma tal “extrema direita”, movimento ínfimo que sequer tinha expressividade em nível nacional.

E o pior, nada disso é novidade. E o CQC obviamente sabia com quem estava falando e que tinha na mão um ótimo produto. O único problema é que os rapazes engraçadinhos acabaram dando status e relevância para as patuscadas que o indigitado repete no Congresso há tempos.

Cada vez que seu nome é citado, para o bem ou para o mau, é uma colherada nova de fermento neste bolo fecal. Esta polêmica foi a “retorta hermeticamente fechada e aquecida” que este homúnculo precisava para se desenvolver.

Criatura X criador

Este é um daqueles casos no qual criatura aprende a controlar o criador. Fazendo a única coisa que sabe fazer bem – criar factóides e novas polêmicas – o deputado fluminense tem a imprensa na mão. Afinal de contas, suas baboseiras vendem jornal.

Quando é que Bolsonaro ia sonhar em ter tanto espaço gratuito no rádio, TV e jornais? Acompanhamento jornalístico 24hrs, campanhas dedicadas a seu nome, brigas entre manifestantes, processos na OAB. Isso é um sonho!

A janela mágica da comunicação, assim como o alquimia, trabalha com elementos perigosos e tem o poder de transformar materiais inferiores em ouro, de dar longa vida (Elvis que o diga…) e criar monstros.

Por isso mesmo, é preciso ser usada por alquimistas aptos e com muito cuidado para evitar que a criatura domine o criador.

Obviamente não acredito que a solução seja apenas ignorar a presença de uma correntede extrema direita no Brasil. Mas o Bolsonaro é um desses elementos que nunca deveria ter saído do armário. Deveria ter ficado ali, acumulando pó, logo abaixo do enxofre. Ao brincar de abrir o frasco com seu nome, o CQC o alimentou com oxigênio.

A contaminação chegou a tal ponto, que acabei escrevendo sobre o assunto. Declaro-me culpado.

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A era dos pequenos irmãos

Olho do observador

A nos observar...

Ele sabe quem você é e onde você está. Pior, ele sabe onde você esteve desde que começou a acompanhá-lo em cada atividade diária.

Ele está com você ao acordar. Acompanha você no caminho do escritório, da academia, do restaurante, do banheiro…

Ele registra cada um de seus movimentos.

Ele se chama iPhone.

Observador silencioso

Esta semana os programadores Alasdair Allan e Pete Warden descobriram um arquivo secreto no iPhone chamado “consolidated.db”. A descoberta ocorreu durante uma simples pesquisa sobre as possibilidades de visualização de dados móveis no iPhone.

“No início não tínhamos certeza de quanto dados estavam armazenados lá, mas depois nós fomos mais a fundo e conseguimos visualizar os dados extraídos. Ficou claro que havia uma quantidade assustadora de detalhes sobre os nossos movimentos”, explicam.

Em seu site oficial, a dupla divulgou um programa em código aberto, o iPhone Tracker, que permite a qualquer pessoa visualizar informações armazenadas de maneira velada em seu próprio telefone. Os dados de geo-localização revelam cada lugar onde o usuário esteve com seu iPhone nos últimos meses.

A captura, feita por meio de triangulação das antenas de celular, ocorre mesmo se os serviços de localização estiverem desativados e não depende de sinal de GPS. Mesmo assim, ela é extremamente eficaz e detalhada.

Veja um exemplo de informações extraídas do telefone de Alasdair:

Washington DC to New York from Alasdair Allan on Vimeo.

Os dois afirmam , ainda, que o arquivo não é um acidente, “é evidente que pelo menos algumas pessoas estavam cientes de que este arquivo existia, mas nada estava sendo divulgado”.

Os dados não estão limitados ao iPhone em si. Todo computador sincronizado com o iPhone também carrega as informações. Os dados também são atualizados e transferidos quando um novo modelo de iPhone é comprado. E, claro, podem ser facilmente acessados em caso de perda ou roubo do seu telefone.

A Apple ainda não se manifestou sobre o assunto. Escrevendo para o Gizmodo Brasil, o jornalista Sam Biddle declarou-se estarrecido:

“Enquanto a Apple não pára de fazer isso, nem explica porque o está fazendo, eu me sinto muito estranho. Estranho de ter todos estes dados que eu não quero, gravados no meu iPhone. Talvez o estejam fazendo para o governo. Talvez o façam porque são obrigados. Ou estão usando os dados para benefício próprio”.

Enquanto isso, outros especialistas declararam que o arquivo já era conhecido de experts no tema e que não há novidade alguma.

Os fatos apenas reforçam que inauguramos a era dos pequenos irmãos: milhões de olhos digitais a nos observar em qualquer lugar, a qualquer momento, silenciosamente. A privacidade, como a conhecemos, já não existe mais.

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Notícias úteis

Esta é uma tradução de um artigo bastante provocador de Gerry McGovern, irlandês arretado que pesquisa e escreve sobre conteúdo para Internet. O texto é de 2008, mas acho que continua válido.

A análise dele é um tanto ácida e talvez até um pouco exagerada. Mesmo assim, a idéia é válida. Um ótimo convite para pensarmos no real valor e estilo do conteúdo que empurramos em nossas páginas ou se nos transformamos em máquinas de cuspir releases.

Notícias úteis

Por Gerry McGovern

Deixar o controle do seu site na mão de um jornalista é como deixar um alcoólatra tomando conta do seu bar.

Jornalistas e escritores trazem consigo muitas das habilidades profissionais necessárias para se trabalhar bem na web. Páginas de internet dependem de conteúdo de qualidade. Bons jornalistas foram treinados para fazer exatamente isso. É um encaixe natural.

No entanto, quando o jornalista administra um sítio, especialmente se for uma intranet, eles imediatamente tentam transformá-lo em noticiários.

A notícia é, claro, parte relevante de uma intranet. Mas raramente é a tarefa mais importante ou razão pela qual as pessoas visitam uma página na web.

Encher a homepage com noticiário não necessariamente indica que você está comunicando mais ou melhor. Em muitas situações, na realidade você está prejudicando a sua reputação como fonte de informação qualificada. Forçar notícias guela abaixo de seus usuários só vai irritá-los.

Muitos sites também cometem o erro de ter como objetivo aumentar a quantidade de notícias publicadas, sem analisar o porquê. Este fenômeno é ainda mais grave quando este volume é composto por conteúdo de auto-propaganda. Um “comunicado de imprensa”, o famoso “press relase”, não passa de uma forma clássica de propaganda. Ele é escrito para auto-bajular e auto-congratular (falo como alguém que já escreveu uma penca deles).

Aliás, em sua origem, os comunicados de imprensa nunca foram destinados a ser lidos pelo público externo. Eles foram pensados como uma maneira de facilitar a venda de uma história para a imprensa. Nada mais.

Com lugar garantido nas seções de imprensa ou arquivos para jornaloistas, os releases nunca devem estar em sua página principal. Destacar este tipo de conteúdo na homepage é um atestado que diz: “estamos com preguiça de tomar um ‘comunicado a imprensa’ e transformá-lo em uma história propriamente dita”.

Estamos lidando com um mundo explodindo em informação.

Em junho de 2008, um estudo publicado pela Associated Press sobre o consumo de notícias pelo público jovem adulto demonstrou “crescentes sinais de ‘fadiga de notícias’”. O fenômeno se refere ao excesso de informação e notícias.

Um dos resultados negativos deste fenômeno é que, quanto mais sobrecarregados ou insatisfeitos, menor o interesse ou a disposição dos leitores de continuarem engajados na comunicação.

O estudo afirma ainda que “esse público jovem tinha pouca paciência para os formatos que prometem e não entregam valor algum”. Ou seja, modelos que vendem ideias vazias.

Não é apenas o público jovem que está se mostrando impaciente e cético.

Lembro-me de estar com um engenheiro enquanto ele examinava a página da intranet da organização na qual trabalhava. Ele balançou a cabeça e sorriu cinicamente: “Lá vem mais uma balela do pessoal de relações públicas sobre como ‘nossa-maravilhosa-organização-salva-o-mundo-e-alimenta-crianças’”, ele zombou. “Eu quero hard news, coisas práticas e úteis. Quero a informação que vai me dar ideias para novos produtos.”

Por outro lado, o estudo da Associated Press também diz que “o consumidor esclarecido transforma a notícia útil em unidades de ‘moeda social’ que pode ser usada em uma variedade de situações interpessoais: para mostrar-se inteligente, facilitar a interação com amigos e familiares ou até mesmo subir a escada sócio-econômica”.

“As noções concorrentes de ‘fadiga de notícias’ e ‘notícia como moeda social’, destacam-se entre estes resultados” continua a pesquisa. “Nossa investigação demonstrou, entre diferentes contextos culturais, que a notícia pode desmotivar consumidores, tão facilmente quanto motivá-los. O valor fundamental para o público é a utilidade de uma notícia”.

Em uma era de déficit de atenção e impaciência, as histórias escritas para sites ou intranets precisam ser totalmente orientadas para conteúdos úteis e diretos.

É preciso ajudar as pessoas a alcançarem seus objetivos, a fazer coisas. É preciso ser prático e real.

Acima de tudo, é necessário ser interessante e ter valor. Não devem ser publicados apenas porque é terça-feira e o chefe diz que temos de publicar algo novo no site.

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Revolução 2.0 ou como uma brastemp derrubou o ditador

Alguma hora este papo de Internet ia bater no ventilador, isso todos sabiam.

Só não se esperava que fosse tão rápido. E muito menos que ocorreria no mundo árabe.

Nas últimas semanas, estamos assistindo a algo totalmente novo: uma espécie de revolução popular viral.

Como uma espécie de flash mob levada a sério, o movimento já vitimou um punhado de déspotas criminosos e continua a se espalhar mais rápido que um post no twitter.

Oswaldo Borrelli e sua brastemp

Oswaldo Borrelli e sua brastemp

Enquanto isso, aqui no Brasil, Oswaldo Borrelli, um consumidor frustrado decidiu tornar público seu calvário em tentar receber assistência da Brastemp. No vídeo, ele explica a situação e pede: “ajudem por favor, divulguem este vídeo, amanhã vocês poderão estar no meu lugar”.

Oswaldo foi ouvido. Milhares de pessoas que passaram o vídeo para frente numa demonstração da força do interesse comum.

Em pouco tempo, sua denúncia tornou-se um dos tópicos mais comentados (top trending topics) no mundo. Ele não apenas conseguiu uma geladeira nova, mas ainda arrancou a promessa de que a Brastemp irá reformar todo o processo de atendimento ao consumidor.

O poder de se organizar sem organização

Qual a relação entre a reclamação de um consumidor sobre a Brastemp e a queda de Mubarak no Egito?

Bom, tanto a população do Egito quanto Oswaldo Borrelli beneficiaram-se dos mais modernos armamentos da indústria bélica da tecnologia: SMS, YouTube, Orkut, Facebook, Twitter…

Pareceu lugar comum?

Pois é exatamente isso que faz cada uma dessas plataformas tão poderosas. Hoje, qualquer um de nós, pode ser o instigador de um movimento. Não precisamos mais de uma instituição específica que financie uma complexa estrutura de organização.

Um dos primeiros profetas deste tema foi o professor Clay Shirky que em 2008 publicou “Eles Vêm Aí: O Poder de Organizar Sem Organizações” (assista à palestra no final do artigo).

No livro, Shirky analisa como ferramentas de mídia social e plataformas de colaboração on-line, a exemplo da Wikipedia, permitem um nível de ação em grupo que, anteriormente, só poderia ser alcançada por meio de instituições. Aí esta a chave da chamada “Revolução 2.0″.

Para ele, da mesma forma que a invenção da imprensa aumentou a expressão individual e o telefone a comunicação direta,  o advento das ferramentas sociais online oferece uma plataforma de organização sem as antigas restrições de tempo e custo.

“Que eu me organizando posso me organizar…”

Trilha sonora indicada para esta etapa:

Flash mob, peer-to-peer, redes sociais, SMS são as mais novas siglas que dispomos para nos organizar, nos unir em torno de causas.

Há dez anos, Borrelli teria reclamado da Brastemp, os vizinhos teriam visto a faixa em frente da casa, talvez se solidarizado emprestando espaço no freezer… e só.

Sim, ele poderia escrever para colunas de consumidor. Mas, convenhamos, poucos jornais se empenhariam em desagradar um anunciante com um gordo orçamento de marketing como a Brastemp.

Da mesma forma, o controle estatal da imprensa nos países árabes não permitia a expressão de qualquer informação contra o regime.

A combinação entre descentralização e disseminação de informação transformou a internet na fagulha que faltava para incendiar a região e marcar a primeira revolução organizada em meios virtuais. Sem a igreja, sem partidos… nascida de indivíduos interconectados.

Em declaração à BBC direto da praça Tahrir, um manifestante egípcio afirmou: “Nem o presidente, nem o vice-presidente sabem como mandar um SMS. Eles não usam email. Eles falam outra língua”.

Abertura de 2001 uma odisséia no espaço

Início da tecnologia

Estas são as armas da nova geração: apedrejam seus governos mentirosos com mensagens no facebook. Levantam o tapete e mostram a sujeira por meio de vídeos e fotos que circulam o mundo denunciando genocídios e ataques covardes das forças governamentais. São os “little brothers” funcionando a nosso favor.

É claro, a Internet é apenas um catalizador, uma ferramenta, uma plataforma. As razões que levam à revolta são as mesmas desde o início da história: violência, humilhação, miséria, fome.

Mas “o homem roubado nunca se engana”.

Palestra virtual: Clay Shirky: Instituições X Colaboração

Para ver legendas em português

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Ficha limpa, uma e-niciativa popular

Campanha pela lei da ficha limpa

Campanha pela lei da ficha limpa

A campanha pela “ficha limpa” entrou para a história como o primeiro movimento digital a resultar em lei.

Mais que isso, o processo mostrou o poder dos novos meios para explorar o potencial de democracia direta da nossa constituição. Estamos diante de um fantástico novo instrumento de participação popular: a e-niciativa popular!

Malandro é o ovo, que já nasceu sem perna para não levar rasteira…

Em 1988, a galera liderada pelo bom velhinho Ulysses Guimarães sentou para promulgar a nova constituição e decidiram nos dar uma colher de chá: permitir que nós, o povo, também pudéssemos iniciar o processo legislativo para a criação de uma lei.

Nascia assim o projeto de lei de iniciativa popular.

Pois bem, adicionaram assim mais um elemento de democracia direta na nossa carta magna.

Nossos constituintes fizeram questão de meter uma série de regras para garantir a dificuldade em se criar um projeto de iniciativa popular. É mané… tá achando que é fácil?

Ulysses Guimarães mostra cópia da constituição de 1988

Ulysses Guimarães mostra cópia da constituição de 1988

Não basta juntar os bródi e propor que todo dia de sol seja feriado.

Para se propor uma lei por meio de iniciativa popular é preciso a “adesão mínima de 1% da população eleitoral nacional, mediante assinaturas, distribuídos por pelo menos 5 unidades federativas e no mínimo 0,3% dos eleitores em cada uma dessas unidades”.

Segundo o TSE, em julho de 2010, eramos 135,8 milhões de eleitores no Brasil. O número mínimo de assinaturas para um projeto de iniciativa popular seria, portanto, 1,36 milhões!

Difícil, non?

Bom, na base do telefone e boca-a-boca, como ocorria em 1988… sim.

Na era do twitter, facebook, orkut, email, celular… nem tanto.

Milhões em ação, pra frente Brasil, salve a cyber-ação!

O que era difícil mesmo em 1988 era prever o avanço das redes de comunicação online.

Articulada pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) e pela Avaaz.org, a campanha pela “ficha limpa” reuniu mais de 2milhões de assinaturas. E, depois de um tortuoso processo de 8 meses, tornou-e o quarto projeto de iniciativa popular a ser transformado em lei.

Em poucos meses a campanha cresceu de forma viral. As estimativas da Avaaz indicam que cada indivíduo repassou a mensagem pedindo assinaturas para outras 47 pessoas. O botão “avise seus amigos” foi utilizado para espalhar a petição para mais 1.600.000 internautas.

Graziela Tanaka, da Avaaz no Brasil, afirma que “aí está o segredo de uma boa campanha. Tem que ter um apelo tão forte que motive as pessoas a acreditarem nela o suficiente para assinar e aderir, e ainda repassarem para a sua lista de contatos”.

Eu adicionaria ainda a questão do momento oportuno.

Não podemos ignorar o contexto de ano eleitoral, ou seja, a política estava na pauta do dia.

Outro fator que contribui para o sucesso da iniciativa foi ela ter coincidido com a popularização do twitter no Brasil. Não foi a toa que a campanha tornou-se um dos tópicos mais populares do twitter (top trending topic) por uma semana.

Comunicação online e cidadania, uma boa idéia

Uma boa idéia!

Uma boa idéia!

Tradicionalmente os grandes veículos de comunicação eram os maestros (ou gatekeepers) deste processo. Ou seja, únicos com balha na agulha para conseguir liderar um movimento social com envergadura para envolver milhões de pessoas.

Esta função de controle ficou nítida na forma como a Rede Globo se empenhou no movimento criado pela escritora Gloria Perez, que incluiu o homicídio qualificado no rol dos crimes hediondos.

No caso da ficha limpa, várias organizações se empenharam para viabilizar o projeto. Além de Avaaz e o MCCE, podemos citar ainda OAB e CNBB.

Mas o combustível que levou o movimento adiante foi a participação individual e a utilização da mídia como meio de organização. O processo se deu de forma orgânica, de baixo para cima.

É óbvio que a chamada “imprensa tradicional” teve um papel importante.

A grande diferença, no entanto, é que seu papel foi de reforçar ou legitimar um movimento que já ocorria. O coleguinhas tiveram de correr atrás para acompanhar e reportar o que acontecia no ciberespaço.

Twitter, orkut e email foram mais que uma maneira de comentar a ressaca da noite anterior ou os problemas de flatulência. Eles foram ferramentas essenciais de uma nova arena de organização social. As manifestações no Egito e Tunísia são o mais recente exemplo deste poder catalisador das redes sociais.

Ao meu ver, a “ficha limpa” é uma das leis mais importantes a serem aprovadas na história recente do Brasil. Sou otimista e acredito que, a longo prazo, a lei será fundamental para moralizar a política no país.

E acho que não podemos parar por aí…

Fica a sugestão para quem quiser: comece uma nova ONG, que foque em gerar novas e-niciativas populares!

A mobilização seria feita online e o trabalho reuniria  expertos jurídicos e comunidades virtuais para selecionar os temas prioritários que seriam alvos de campanhas de assinatura virtual.

Esta poderia ser uma revolução que aproximaria o poder da população, uma espécie de democratização da democracia.

Quem sabe assim não fazemos aquela reforma política de que tanto precisamos?

E aí, como você acha que esta ONG poderia funcionar? Quais seriam as leis que você proporia?

Deixe seu comentário abaixo…

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Geração ponte: o nascer de uma cultura eletrônica

Há algo de especial na geração que veio ao mundo entre 1970 e 1985.

Há algo a mais que nos diferencia, além do fato de acharmos natural chamar uma espécie de suíno-humanóide sofrendo de bi-protuberância testículo-facial de “fofão“.

Não fomos apenas os filhos da revolução e os burgueses sem religião.

Somos e fomos a geração que cresceu acompanhando a transição do mundo de analógico a digital.

Crescemos em progressão aritmética (em que r=1) enquanto os bits e bytes progrediam geometricamente.

Tela do River Raid, clássico do Atari

Tela do River Raid, clássico do Atari

Variávamos entre jogar botão e River raid. Compramos nossos primeiros LPs para dançar música lenta com as menininhas, gravamos uma coletânea do ramones em fita K7, passamos para os CDs e sugamos o que podíamos de MP3 enquanto o Napster deixou.

Em resumo, somos uma geração ponte: vivemos e provocamos a transição cultural entre um mundo digital e analógico.

Meninos eu vi!

É claro que viver esta evolução digital não foi nem é privilégio nosso. É óbvio que não inventamos a computação, já tinha muita coisa rolando quando nascemos. E nem todo mundo da nossa faixa etária aproveitou este processo da mesma forma.

Mas para quem cresceu, acompanhou, adotou e participou da construção desta cultura eletrônica, fica aquela sensação de pioneirismo. Somos os velhos lobos do mar, os veteranos do front ostentando as cicatrizes da batalha…

Quando rodeados pelos néscios imberbes que mesmo antes de nascer já são filmados e fotografados em formato digital, olhamos para um ponto infinito e exclamamos com voz encanada:

- “É… no meu tempo, meu filho, modem era de 2400bps, telefone se ‘discava’ e meu TK85 levava 10 minutos para rodar invasores do espaço a partir de uma fita K7″.

A geração que viveu o nascer das redes globais

Nos finados anos 80 e início dos 90, sob a maravilhosa má influência do meu primo Flávio e os boyzinhos da cidade, comecei a acessar o submundo dos BBSs.

Entre as nefastas compras de mês e fiscais do Sarney, acessava o Lucanet, super BBS administrado pelo meu primo e um dos mais completos do Brasil, naquela época.

O grande problema era o preço do interurbano para a conexão via modem. A solução era conectar-se depois da meia-noite, assim pagava-se apenas um pulso telefônico para utilizar, sem restrições monetárias, o rico e nobre conteúdo educativo disponível para sócios VIP como eu (ser primo do dono tinha certas vantagens…).

E o Lucanet não era o único. Em Brasília havia, ainda, o Badalhoca, o Presuntinho e muitos outros.

Enquanto isso, nos EUA, os sistemas de BBS evoluíram de forma profissional. Na era pré-Internet, os norte-americanos estavam digitalmente divididos entre usuários do Prodigy e do América Online.

Tive a chance de utilizar o Prodigy e assitir à primeira transmissão de notícia em tempo real quando estourou a primeira guerra do Golfo, em 1990.

Tela de abertura do Prodigy

Tela de abertura do Prodigy

Por meio do Prodigy, fiz compras e jogava online (o famoso Mad Maze). Sempre que tinha uma chance, aproveitava um computador dando sopa numa loja de informática, com prodigy instalado, e mandava uma mensagem eletrônica para o meu primo José. Isso ainda em 1991/92.

Ah, que saudade da minha velha Olivetti!

Meu primeiro computador foi um TK85 que ganhei do meu tio nos idos 1988.

Ele ficava conectado à minha TV do quarto (equipada sempre com bombril na antena) e levava 10 minutos para carregar uma fita K7 com o jogo invasores do espaço.

TK85 e acessórios, bem parecido com o que eu tinha em casa

Depois a evolução foi em siglas, passando pelo antológico MSX, o Mac Classic E3, o primeiro pentium 385 e assim por diante.

Até que a Internet chegou como uma bomba catalizadora na (r)evolução digital!

A rede acelerou, ampliou e amplificou o que já vinha acontecendo.

Em 1995, através de contatos, consegui me inscrever na BRNet – primeiro provedor de Internet em Brasília – um dia antes do processo ser aberto ao público em geral. Fui um dos primeiros a ter acesso à rede mundial na vizinhança e logo comecei a explorar o IRC, o avô dos programas de chat.

Um ano mais tarde, comecei a brincar de fazer sites na Internet e, ao lado do ilustre senhor Leonardo Santos, lançamos o site “Inútil On-line”. Hospedado no finado Geocities, o conteúdo do sítio fazia jus ao nome.

Entre 1998 e 99, participei da primeira cobertura fotográfica “digital” de uma passeata em Brasília. Na época, trabalhava para o ZAZ Internet (atual Terra), e cobrimos a Marcha dos 100mil.

Combinamos com um laboratório fotográfico localizado próximo ao escritório do ZAZ, passei o dia tirando fotos com minha Pentax K1000. No final da tarde, corri para o laboratório que processou as mais de 100 imagens em tempo recorde.

No escritório, aceleramos para escanear as melhores para depois programarmos no HotDog HTML Editor a primeira galeria “digital” (nada de wordpress naquela época) de um evento político que o ZAZ colocava no ar como produção própria.

E o quico?

Assim como eu, cada um de nós que crescemos no meio desta revolução tecnológica tem histórias semelhantes. Ter vivido este processo na nossa infância, adolescência e ver esta indústria florescer na vida adulta não nos dá super poderes. Mas nos dá uma perspectiva diferente.

Nos permite compreender a origem de certas coisas e, quem sabe, alcançar soluções alternativas e inovadoras.

Estamos chegando à maturidade profissional, mais uma vez, surfando a crista da onda desta contínua (r)evolução tecnológica e consolidando a cultura eletrônica que ajudamos a formar.

Nos próximos anos, somos nós que vamos tomar as decisões que definirão os rumos destas mudanças.

Agora chegou a nossa vez.

A vez de mostrar se vamos apenas cuspir de volta o lixo que nos empurraram.

Ou se vamos fazer nosso dever de casa e ajudar a derrubar reis.

Somos o presente da nação!

E tem mais um vídeo interessante, para quem aguentou chegar até aqui:

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Guerra total – wikileaks e a comunicação no século XXI

“O alcance global e instantâneo do sítio (wikileaks) representa um desafio não apenas a segredos de estado por toda parte, mas também para a própria ideia de ‘governo’ em sua essência”, Mark Feldstein, professor de mídia e relações públicas na George Washington University.

Desde a primeira vez que li sobre o wikileaks fiquei fascinado.

E não foi necessariamente o conteúdo de seus vazamentos que me impressionou, mas seu impacto a longo prazo, a capacidade que Julian Assange e seu grupo tiveram de usar a web para subverter o status quo do controle da informação e as velhas alianças político-midiáticas.

Não se iludam, o que está em jogo nesta polêmica não é a vida de pobres recrutas americanos ou agentes da CIA, como os governos tentam nos fazer crer. Está em cheque a capacidade destas mesmas oligarquias políticas em manipular o que nos é permitido saber, ou não, sobre os garotos que eles enviam a cada dia para a guerra.

Repressão sem fronteiras

A reação truculenta e desproporcional de países auto-proclamados “democráticos e livres” – incluindo prisões de adolescentes, tentativas de classificar o wikileaks como organização terrorista e até pedidos de execução sumária de seu fundador – transformaram o site no símbolo de uma nova política sem fronteiras.

A repressão governamental foi virulenta, explícita e internacionalmente orquestrada: o cidadão australiano, Assange, foi preso na Inglaterra, sob acusação de “crimes sexuais” na Suécia. Enquanto isso, os EUA tentam destruir conceitos pétreos de sua constituição – famosa pela defesa da liberdade de expressão – para tentar enquadrá-lo como espião.

Mas espião a serviço de quem? Qual o inimigo que o emprega?

Assange foi caçado pela Interpol, sob alerta vermelho, pela seguinte acusação: durante uma sessão de sexo consensual, o preservativo rompeu, tendo sido retirado. Na Suécia, este ato é equivalente a estupro com pena de até dois anos de prisão.

O processo, raramente explicado em seus detalhes, acontece num momento, no mínimo, ligeiramente suspeito…

Tudo isso transforma Assange num mártir da liberdade de expressão no século XXI, herói de um novo tipo de guerra cibernética.

Com a pressão governamental, empresas como Amazon, Paypal, Visa e Mastercard se recusaram a processar as doações para o sítio. Este ato absurdo, coloca em cheque a idéia de uma economia digital independente e demonstra a vulnerabilidade do sistema ao controle político.

A resposta da comunidade cibernética foi imediata.

Primeiro, o site do wikileaks passou a ser servido por voluntários e sua informação está agora dispersa pela rede.

Depois, diversos grupos se organizaram para lançar ataques de negação de serviço contra as empresas que boicotaram o wikileaks. Tudo pela defesa de uma internet livre.

O wikileaks é apenas sintoma

Sintoma de uma mudança estrutural na maneira como produzimos, divulgamos e consumimos informação.

O wikileaks fere a lógica essencial do agendamento, da troca de favores, do controle indireto, da censura prévia e do “coleguismo” que sempre existe – em menor ou maior grau – entre a imprensa e forças políticas dominantes.

O wikileaks fere a capacidade dos governos em manipular dados, relatórios e justificar o injustificável.

A falta de controle sobre a informação é algo que governo nenhum tolera, mesmo os que se dizem a favor da liberdade de expressão.

EUA, Inglaterra, Holanda, Suécia, e demais governos envolvidos nesta novela estão gastando todos seus cartuchos e empenhando seu peso repressivo por uma única razão: cada um de nós teves a oportunidade de espionar, por muito pouco tempo, o que é a política internacional no dia-a-dia, vimos o outro lado do espelho de forma nua e crua.

Nós, o público, somos os empregadores do “espião” Assange.

No dia 20 de Março de 2003, os EUA começou a invasão do Iraque sob a alegação mentirosa de que o regime de Saddam Hussein estava desenvolvendo armas de destruição em massa.

Até 2010, a guerra já havia matado cerca de 100mil civis iraquianos (iraqbodycount.org) e 4mil soldados de tropas aliadas.

Será que esta farsa – que assassinou milhares e milhares – teria sido sustentável se um wikileaks tivesse vazado os relatórios negando a existência de armas no Iraque, convenientemente ignorados por Bush, Tony Blair e outros da gangue?

Quem mata mais: wikileaks ou falta de transparência governamental?

Com a palavra, Julian Assange:


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O olho do observador

Observador

(imagem original de Michael Jaecks)

“Beholder, ou Observador, é o nome dado a um tipo de criatura presente nos jogos de RPG. Possui corpo esférico, com um grande olho antimagia no centro e vários tentáculos no topo. Na ponta de cada um dos tentaculos há um olho capaz de realizar algum tipo de magia. As mais comuns são raios paralisantes, raios de gelo, raios de calor, correntes elétricas entre outras magias que são feitas em forma de raio”. Fonte: Wikipedia

Até pouco tempo atrás, na época da fotografia de filme, andar com uma câmera no bolso só para: fazer turismo, em dia de aniversário, batizado, formatura ou final de campeonato com o Mengão. Aliás, as câmeras nem cabiam no bolso.

E ninguém ia doar o suado salário, já carcomido pela inflação, para a Kodak tirando foto de tudo o que acontecia. Foto era – quase sempre – coisa posada, motivo para pentear o cabelo e lustrar o kichute.

Ou seja, tirar uma foto era um momento de certa forma, especial e ocasional.

Hoje para ter uma foto basta tirar o telefone do bolso, apontar e registrar o que for: 13mil fotos dos primeiros passos do bebê, aquele vôo de asa-delta no Pepê, o amiguinho vomitando aquele red label falso depois da formatura, o canalha que bateu no seu carro, a roupa que você pensa em comprar, o prato do restaurante, menino nascendo, esposa dormindo, passarinho voando, grama crescendo…

Depois é simples. Com dois cliques em qualquer telefone mais bem equipado – os ismartí foni – e a foto já está no Orkut, Facebook, Twitter.

De aí em diante, o bebê, o vômito do amiguinho, a batida do carro, a roupa, o prato, o filho, a esposa, o passarinho e a grama deixam de fazer parte da esfera da nossa vida privada. Tornam-se públicos nas nossas redes de broadcasting particular.

Milhões de olhos eletrônicos

Segundo o grupo Gartner, nos primeiros quatro meses de 2010 um total de 314.7 milhões de celulares foram vendidos. Destes, 54.3 milhões foram smart phones – um aumento de 48.7% em relação às vendas do ano anterior.

Ou seja, no mínimo do mínimo, do mínimo, temos 55milhões de novos olhos eletrônicos à espreita.

Big brother não é nada. Além do grande irmão controlado por um Estado opressor, agora temos os pequenos irmãos: os olhos digitais do cidadão comum a nos observar em qualquer lugar, a qualquer momento, silenciosamente.

Apocalípticos

A era da privacidade acabou.

Tudo é público. Você pode tentar se esconder, não publicar fotos pessoais. Mas a Internet é mais fote. Se você é um cidadão minimamente sociável, fatalmente algum camaradinha vai publicar uma foto sua online.

De agora em diante, qualquer pessoa está exposta a ter sua imagem divulgada de forma massiva e sem controle.

Aquele vexame do carnaval passado pode reaparecer a qualquer momento sob forma de foto ou vídeo na Internet. Aquele momento de fraqueza, o vacilo, a trapalhada – qualquer coisa pode lhe transformar no novo hit do YouTube, destruir carreiras, acabar com casamentos.

Um exemplo cruel disso é o fenômeno do “sexting“, nome dado ao ato de se trocar fotos e/ou vídeos eróticos via meio eletrônico (celular ou email).

A moda pegou entre adolescentes americanos e, como é de costume no lado puritamo e falso-moralista dos E.U.A., o “sexting” foi rapidamente declarado como inimigo público número 1. A histeria começou depois de um caso trágico, no qual uma adolescente se suicidou depois que suas fotos circularam pelo colégio.

A questão ética é profunda e complicada, especialmente porque a maior parte destas fotos são consideradas “pornografia infantil” mesmo se forem feitas pelas próprias crianças.

Integrados

Por outro lado, ter uma câmera no bolso pode ser uma arma a favor da democracia.

Provavelmente o caso mais clássico é o de Neda Soltani, assassinada durante os protestos contra os resultados das eleições de 2009 que reelegeram o presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Sua morte foi acompanhada em detalhes por vários telefones celulares e, em minutos, circulou o mundo, tornando-se num dos maiores testemunhos da estupidez do atual regime Iraniano.

Outro exemplo são as chocantes imagens das torturas realizadas por soldados americanos na prisão de Abu Ghraib, Iraque.

As fotos mostraram ao mundo a real face do tratamento dado aos prisioneiros americanos durante a guerra e desmascaram o falso verniz de “salvadores da liberdade” que o tio Sam ainda tentava se impor.

Da mesma forma que expõe o particular, uma câmera também oferece ao indivíduo a possibilidade de denunciar e expor o Estado, uma corporação, um criminoso. Principalmente quando as três entidades se materializam de maneira única.

Como já diziam nossas avós: tecnologia é uma faca de dois legumes. Muda nossa vida, sem se perguntar se bom ou ruim.

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A beleza (e o poder) da comunicação visual

São 20 minutinhos que valem muito a pena.

Esta é mais uma imperdível palestra do TED talks. Desta vez o jornalista-designer David McCandless fala sobre a arte e o poder de se transformar números em informação visual.

Ele transforma conjuntos de dados complexos como gastos militares mundiais, media buzz, atualizações do Facebook e mais em bonitos ainda que simples diagramas.

Ele propõe design de informação como a ferramenta que usamos para navegar por meio do excesso de informação de hoje, achando padrões e conexões que podem mudar a maneira como vemos o mundo.

Legenda em português:

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